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Torcedoras LGBT relatam clima de medo após gritos homofóbicos pró-Bolsonaro

Renata Mendonça

10/10/2018 12h45

A polarização política que atingiu o país nas atuais eleições presidenciais chegou aos estádios de futebol. E, com ela, o surgimento de gritos homofóbicos que têm aumentado ainda mais o medo de torcedores LGBT de frequentarem as arquibancadas. O ambiente, que já era normalmente hostil a este público, parece ter se tornado ainda pior.

No centro da polêmica está o candidato Jair Bolsonaro (PSL), que já fez declarações controversas contra a comunidade LGBT. Na esteira disso, torcedores de Atlético-MG e Palmeiras criaram gritos de cunho homofóbico que citam o presidenciável e provocam clubes rivais.

"Ô Cruzeirense, toma cuidado, o Bolsonaro vai matar veado", cantaram os torcedores do Atlético-MG no último clássico entre os dois times no Mineirão. Cântico quase idêntico foi feito por palmeirenses no metrô há uma semana, numa tentativa de provocação aos torcedores do São Paulo.

E como ficam os torcedores LGBT diante de um ambiente tão hostil? Para entender um pouco sobre como esse preconceito afeta homens e mulheres homossexuais na arquibancada, o blog reuniu depoimentos de torcedoras lésbicas que sempre frequentaram estádios. O nome das entrevistadas foi alterado pela reportagem por questões de segurança.

A primeira pergunta era: como é ser lésbica no estádio? A resposta é simples: não é. Por medo, nenhuma das entrevistadas já teve coragem de demonstrar carinho a uma namorada na arquibancada ou viu algo parecido acontecer. O beijo gay já ultrapassou a barreira da novela da tarde (Malhação), mas ainda esbarra no portão do estádio – e olhe lá, porque nem no entorno é comum encontrar casais homossexuais de mãos dadas ou se beijando em dia de jogo.

"Eu sou do interior de Minas, frequento os jogos, mas nunca demonstrei ser LGBT no estádio. Porque nunca me senti confortável ou segura para fazer isso. Nos últimos meses, não fui a jogo nenhum. Não me sinto segura. Se antes já era difícil, hoje está muito mais", afirmou Michele* às dibradoras.

"Nunca vi nenhuma manifestação LGBT no estádio. Eu não teria coragem de chegar de mão dada ou de dar beijo na arquibancada", disse a corintiana Helena*.

"Só em um jogo que estava muito frio eu e minha namorada nos abraçamos em determinado momento, mas ficamos atentas. Recebemos uns olhares diferentes, sempre tem os olhares", contou Laura*, também torcedora do Galo.

Como mulheres fãs de futebol, as três já enfrentaram situações de assédio no estádio. Elas reconhecem que têm receio de deixarem "escapar" qualquer demonstração afetiva por uma namorada por temerem o que pode acontecer com elas.

"Já não é seguro para uma mulher ir a um jogo, eu já fui assediada em estádio com meu pai do meu lado. Então imagina para uma mulher lésbica na atual situação", disse Michele.

Foto: Reprodução Galo Queer

"A gente já tem que aguentar falar pro goleiro que ele é 'bicha' na hora de reposição de bola, a gente tem que ficar aguentando termo pejorativo de torcedor para rival, chamar de 'maria', de 'franga'. Eu sou atleticana doente e, nesse último episódio do Galo que aconteceu [contra o Cruzeiro] eu não consegui nem ver jogo direito depois. Porque machuca, machuca bastante", complementou.

"Eu fiquei muito triste, chorei. E, pela primeira vez na minha vida, cogitei não ser atleticana. Cogitei deixar o futebol para lá. Porque eu sou uma pessoa muito ansiosa, tenho alguns problemas psicológicos, e o futebol sempre me ajudou muito com isso. Eu pratico esporte, gosto disso, é algo que sempre me deixou bem. E uma coisa que me deixava tão bem tem me deixado muito mal. Gosto muito de estádio, sempre me senti muito bem lá, mas nunca me senti totalmente segura e hoje é muito pior, então eu evito", prossegue.

Não é só Michele que está com medo de voltar à arquibancada. A fanática corintiana Helena está com o mesmo sentimento. O Corinthians terá o jogo do título da Copa do Brasil na próxima semana na Arena contra o Cruzeiro, e a jovem não sabe ainda o que esperar para a partida – não em termos de esquema tático e estratégias de jogo, mas em termos de segurança mesmo.

"O que eu estou sentindo com essas manifestações recentes das torcidas é que, além de tudo o que você tinha no estádio, agora você tem um componente ainda maior, que é a homofobia declarada, não mais velada. Eu sempre consegui ir para o estádio sem problemas, agora eu tenho pé atrás", pontuou.

Foto: Mineirão/Agência i7

"Acho que ainda que houvesse muita homofobia antes, era uma coisa mais velada. Mas quando você chega num estádio que você ouve 'Bolsonaro vai matar viado', ou no metrô, isso transforma o clima lá dentro. Acho que quando é velado, não afeta tanto, mas quando é explícito assim, a gente começa a pensar que é possível alguém fazer algo contra você."

O tema da homofobia no futebol é tão tabu que nem mesmo clubes envolvidos e CBF (organizadora dos principais campeonatos) costumam se manifestar sobre ele. A entidade máxima do futebol tem encabeçado campanhas contra o racismo, mas nunca fez nada relacionado ao preconceito por orientação sexual.

As próprias equipes de elite do Brasil evitam um posicionamento nessa área por saberem que isso pode gerar mais polêmica. No entanto, para as torcedoras que só querem poder ir ao estádio em paz e sem medo de eventualmente sofrerem agressões, a primeira ação a ser tomada para diminuir a homofobia na arquibancada parte justamente de clubes e CBF.

"Acho que precisa haver uma conscientização por meio de campanhas por parte da CBF. E acho que os clubes precisam se unir, porque é um assunto que não pode ser banal, a gente tem que falar sobre isso. Assim como racismo já foi bem aceito e hoje não é. Se tem atitude racista no estádio, as pessoas repudiam, porque sabem que haverá consequência para o clube. Então a gente tem que fazer o mesmo com a homofobia", observou Michele.

"A arbitragem tem que ser instruída a registrar manifestações de preconceito. Clubes só podem ser punidos se houver registro do árbitro daquela ocorrência. Tem que estar registrado na súmula para ter punições. Quem sabe assim a torcida vai parar de se manifestar desse jeito para não prejudicar o clube", sugeriu Laura.

Está na hora de todo mundo poder ser o que quiser na arquibancada. Mulher, homem, heterossexual, homossexual, branco, negro, rico ou pobre: que nosso abraço na hora do gol seja livre de preconceito.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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