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Curry defende igualdade de gênero: 'que minhas filhas cresçam sem limites'

Renata Mendonça

29/08/2018 04h25

(Foto: Ronald Martinez/Getty Images)

Aos 30 anos de idade, Stephen Curry tem três títulos da NBA, dois ouros em Campeonatos Mundiais, uma coleção de outras conquistas e é considerado um dos maiores nomes do basquete. Mas, mais do que tudo isso, Curry tem duas filhas. E são elas que estão mudando a forma dele de pensar sobre o mundo ao seu redor.

Em uma carta publicada no site "The Player's Tribune", o jogador da NBA revela suas inquietações com o crescimento e desenvolvimento de suas meninas e reforça seu papel, como pai e pessoa pública, na luta pela igualdade de gênero.

"Riley e Ryan estão crescendo muito rápido. (…) Eu estaria mentindo se não admitisse que a ideia de igualdade para mulheres tenha se tornado mais pessoal para mim nos últimos tempos. E mais real também", afirmou o astro em carta escrita para o "The Player's Tribune".

"Eu quero que minhas filhas cresçam sabendo que não há limites para seus futuros, e ponto final. Eu quero que elas cresçam em um mundo onde seu gênero não traga um livro de regras sobre o que elas deveriam pensar, ser ou fazer. E quero que elas cresçam sabendo que podem sonhar alto e lutar por carreiras onde serão tratadas igualmente".

Curry diz nesse mesmo texto que uma de suas meninas já sonha em ser uma "jogadora de basquete e cozinheira", assim como os pais. Mas se ela fizer parte da estatística da maioria, provavelmente desistirá da primeira opção em breve: 53% das meninas desistem do esporte até os 17 anos, segundo uma pesquisa encomendada pela marca Always em 2015 para a campanha "Tipo Menina".

Foto: AP

Não se sabe ainda se ela seguirá a carreira da mãe, como empresária-cozinheira, mas se seguir a tendência dos números, provavelmente será responsável por cozinhar ao menos em casa: mulheres passam o dobro de horas dos homens cuidando das tarefas domésticas, segundo essa pesquisa.

Mas o pior de tudo é que, caso a filha de Curry confirme o que dizem os estudos, talvez já no ano que vem ela já não sonhe tão alto quando for perguntada sobre o que quer ser quando crescer e duvide de sua capacidade de chegar lá: de acordo com uma pesquisa da Universidade de Nova York, as meninas começam a perder a confiança aos 6 anos (justamente a idade de Riley).

A única "certeza" que já tem é que, independente da profissão que escolham, as filhas de Curry receberão cerca de 15% ou 20% a menos do que um homem exercendo a mesma função (uma diferença que pode chegar a 30% no Brasil).

"Acho importante que nos unamos para descobrir como podemos tornar isso (igualdade) possível o mais rápido possível. Não apenas como 'pais de filhas', ou por esse tipo de motivo. E não apenas no Dia da Mulher. Precisamos trabalhar todos os dias para acabar com a diferença salarial nesse país. Porque todo dia essa diferença salarial está afetando as mulheres. E, todo dia, essa diferença salarial está enviando a mensagem errada para as mulheres sobre quem elas são e como são valorizadas, e o que elas podem ou não podem ser", afirmou o jogador de basquete na carta.

Não é "mimimi", são os números gritando bem alto qual é a diferença de se nascer menino ou menina. Curry reconhece que, porque suas filhas nasceram mulheres, terão de enfrentar inúmeros desafios na vida com os quais seu filho mais novo, recém-nascido, nunca irá se deparar.

E talvez esse seja um dos motivos pelos quais, neste ano, o astro da NBA tenha promovido uma clínica de basquete feita especialmente – e exclusivamente – para meninas. Um local onde elas pudessem aprender, jogar com ele e conhecer lideranças femininas de várias áreas do esporte. Referências, afinal, são muitas vezes o que faltam para as meninas acreditarem que podem chegar lá e ocupar aquele espaço.

Foto: AP

"Eu nunca vi um grupo de crianças tão engajado. Em toda clínica de basquete para meninos onde estive, você sempre tem algumas crianças correndo por aí, sendo rebeldes. Mas nessa clínica, as meninas estavam tentando absorver todas as coisas. Eles estavam correndo até mim depois de cada treino, dizendo 'Steph, Steph, eu tenho algumas perguntas sobre como você treinou quando criança. Foi especial", relatou Curry.

"Tivemos uma sessão de perguntas e respostas com várias mulheres bem-sucedidas em esportes e nos negócios, campos historicamente dominados por homens. E nossas meninas me surpreenderam com suas perguntas. Exatamente como o nível de consideração e cuidado que estava fluindo por elas, e a maturidade de tudo isso. Isso realmente me surpreendeu", afirmou.

Diante de tudo isso, Curry escolheu se posicionar e defender abertamente a igualdade de gênero. Ele ainda vai além promovendo sua clínica para desenvolver as meninas no basquete em uma forma de combater na prática essas diferenças de oportunidade que ficam tão explícitas no esporte.

Foto: AP/Jeff Chiu

Infelizmente, ainda é muito raro ver atletas do calibre de Stephen Curry falarem sobre isso. E é preciso que os homens também entendam o papel que têm na construção de uma sociedade mais igual, que dê aos seus filhos e filhas exatamente as mesmas oportunidades. O peso de um discurso desses na voz de um gigante do basquete é muito maior e chama a atenção do mundo todo para uma questão que é cada dia mais urgente.

"Eu não estou satisfeito. Na verdade, estou mais motivado do que nunca para ajudar as mulheres que estão trabalhando por essa mudança de todas as formas que eu puder. Vamos trabalhar para acabar com essa desigualdade de oportunidades. Vamos trabalhar para acabar com a desigualdade salarial. E vamos trabalhar juntos nisso", concluiu o armador.

Não dá para saber se o mundo estará "mais igual" quando Riley e Ryan chegarem à vida adulta. Mas elas já podem crescer com a certeza de que, no que depender do pai delas, ele já será um lugar melhor.

 

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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