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Joanna de Assis: Trabalhava com roupa do meu irmão pra fugir de estereótipo

Renata Mendonça

25/08/2018 11h17

    Foto: Arquivo Pessoal

Era treino do São Paulo (ou do Palmeiras ou do Corinthians) e, entre os jornalistas que estava na beira do gramado, chamava a atenção um deles, mais baixo e com roupas tão largas que caberiam numa pessoa com uns 30 cm a mais de altura.

Na verdade, ele era uma mulher. Era Joanna de Assis, que preferia vestir as roupas do irmão mais velho para fugir do estereótipo que se tinha das mulheres no Jornalismo Esportivo naquela época (e que tantas vezes se repete hoje em dia). "Ah, a menininha bonitinha, só está ali porque é bonita", era o que sempre repetiam. Acostumada a ser a única no meio dos caras, Joanna resolveu se vestir como eles para passar mais "despercebida".

"Quando eu comecei, era uma época em que ainda podia fumar dentro da redação, aí tinham uns repórteres, que eram broncos mesmo, ficavam fumando e falando besteira pra gente na redação. Então desde o começo a gente escuta muita coisa machista", afirmou Joanna em entrevista às dibradoras.

"Durante muito tempo, eu tentei me proteger. Eu ia meio travestida para os treinos, colocava roupas do meu irmão, aquelas calças de tactel, toquinha…eu ia muito largada porque eu queria fugir desse estereótipo do tipo: menininha que está ali porque isso ou aquilo", disse.

Joanna começou no Jornalismo Esportivo escrevendo e passou bastante tempo fora das câmeras, atuando na revista Placar (onde ganhou o prêmio Abril) e em sites. Acabou migrando do Globoesporte.com para o Sportv após uma participação em um dos programas do canal. Saiu dele com um convite para atuar na televisão. E quando começou no vídeo, sentiu ainda mais o preconceito que era ainda mais acentuado com as mulheres que ousavam trabalhar no Jornalismo Esportivo na época.

Foto: Arquivo Pessoal

"Eu já ouvi tudo. Logo que entrei no Sportv fiz um desabafo gigantesco num blog que eu tinha. Eu desabafei muito, porque ficava muito chateada. Toda vez que dava um furo, uma informação exclusiva, era essas coisas que você ouvia. "Ah, mas é mulher né?". "Está saindo com alguém", esse tipo de coisa", relata.

"Já chorei muito, já ouvi absurdos que hoje eu não ligo mais. Eu não vejo uma mudança tão rápida pra falar a verdade. Quando eu comecei, em 1999, era assim e até hoje continua assim."

Mas Joanna persistiu no caminho e mostrou inúmeras vezes, para quem ainda duvidava, sua qualidade como repórter. Em 2015, ela se tornou a primeira mulher a ganhar o prêmio de melhor repórter da Aceesp (Associação de Cronistas Esportivos de São Paulo) e, neste ano, deu uma aula de reportagem ao revelar o maior escândalo de abuso sexual do esporte brasileiro.

Nessa entrevista, ela conta um pouco sobre seu início no jornalismo, os 8 anos em que ficou no Bem, Amigos, e os bastidores da apuração sobre os abusos na ginástica.

Veja aqui os principais trechos:

– Como começou no jornalismo esportivo?

Joanna de Assis: Eu entrei na faculdade de jornalismo porque eu gostava de escrever, não só sobre esporte. Aí eu queria escrever uma matéria, subi lá na Gazeta Esportiva, entrei no computador e comecei a escrever essa matéria. Não consigo imaginar como eu fiz isso. Aí veio um editor e disse: "vem cá, quem é você? Você é muito petulante! Quer trabalhar aqui?" E foi assim que começou. Acabei entrando no esporte sem querer. Tentei parar, e aí trabalhei com restaurante, mas depois voltei no globoesporte.com.

Foto: Arquivo Pessoal

– Como foi seu início no Sportv?

Joanna de Assis: Eu trabalhava no site do Globoesporte e participei uma vez do Redação Sportv. Aí o diretor gostou e quis me levar para lá. Mas primeiro queriam me colocar como comentarista. A primeira coisa que fiz no Sportv foi comentar um jogo do Corinthians com Milton Leite. Era Corinthians x ABC, no Frasqueirão, eu estava de folga, nem estava preparada para isso, mas sobrevivi. Depois comentei um jogo do Palmeiras na rádio. Mas não é o que eu gosto de fazer. Hoje se me chamassem para comentar, eu continuo não estando preparada, acho que a gente tem que fazer o que a gente faz melhor, comentar jogo de futebol não é o que eu faço melhor. Acho que sou melhor na reportagem, apuro melhor, conto uma história melhor.

– Você ficou bastante tempo no Bem, Amigos!, um programa que dava pouca abertura para mulheres comentarem. Como foi isso?

Joanna de Assis: Eu fiquei 8 anos no Bem, Amigos. Era o programa de maior audiência da TV fechada, então as pessoas me conheciam por causa disso. Tinha um lado bom do aprendizado, do reconhecimento, e tinha o lado ruim que era do estigma, porque as pessoas não viam as outras coisas que eu fazia e achavam era só estar ali. Essa parte me chateava um pouco às vezes. Me foi dada abertura para participar, mas em alguns momentos era difícil, porque eram muitas pessoas para falar. Realmente aquela posição ali era meio marcada.

Foto: Arquivo Pessoal

Eu tinha que ter um trabalho mais limitado nessa função, mas nunca ninguém falou pra mim: olha, você não pode fazer pergunta. Mas era complicado o jeito que foi configurado. Aí eu dava meus pulos de vez em quando, tentava fazer pergunta aqui, outra ali, trazia uma informação. Era uma forma que eu tinha de participar do programa. Mas é uma coisa obsoleta hoje em dia, de fazer como a gente fazia. Estava obsoleta há muito tempo.

– Você revelou um caso muito importante de abuso sexual na ginástica. Queria que contasse como foi o processo de apuração e como se sentiu ao descobrir tudo isso.

Joanna de Assis: Eu me filmei em vários momentos porque eu queria lembrar o que eu estava sentindo. Eu chorei muito. Foi muito difícil. Eu cobri o caso americano (do médico Larry Nassar), e eu nunca esqueci o caso de 2016, sempre ficou na minha cabeça. Aí liguei para o Petrix Barbosa, que era atleta brasileiro, que mora nos Estados Unidos, pedindo ajuda com contato americano, e ele deu uma resposta de pessoa sentida. Eu reconheço essa dor, falei: tem alguma coisa errada, você quer me contar? Ele não quis me contar. Aí em janeiro, quando eu estava embarcando para fazer a do Larry Nassar, eu voltei a falar com o Petrix, e aí ele vomitou a história pra mim de um jeito muito visceral. Ele fez um desabafo inesperado pelo telefone. Aí eu fiquei chocada e perguntei para ele: a pessoa que fez isso com você por acaso foi o Fernando? Ele falou que era. E falou: te faço um desafio: encontre outros. Aí virou pessoal. E eu não encontrei poucos, encontrei muitos. E fiquei muito mal.

Foto: Arquivo Pessoal

Foi uma aula de jornalismo para mim. Eu aprendi como lidar com uma situação que é muito sensível, como tirar as pessoas daquela sombra. E aí você coloca uma cobrança dentro de você porque você quer que aquele caso se resolva, você sofre junto com as mães, com as pessoas que você conversa. Você tem que se distanciar da maneira possível.

Eu só pensava assim: isso aqui tem que mudar a realidade das pessoas. Tem que tirar o preconceito com os homens, sim. Eu escutei muito uma coisa ignorante que é: por que não falaram antes? gente, trauma não funciona assim, é uma criança, as pessoas demoram para entender isso. Eu me senti na obrigação de ser um pouco educativa. Escutei absurdos do tipo: mas será que eles não gostavam? Po, serio?

Acho que caiu na mão da pessoa certa, porque eu queria muito que a realidade mudasse, então levei isso com amor à profissão, queria fazer aquilo muito bem investigado, e dá trabalho.

Foto: Arquivo Pessoal

– Como você vê a realidade da mulher no jornalismo esportivo hoje em dia?

Joanna de Assis: Quando eu ganhei o prêmio da Aceesp em 2015 de melhor repórter esportiva, fui a primeira e acho que até hoje sou a única. A Regiane Ritter, que é pioneira na área, falou pra mim: eu tenho meu nome em um troféu que eu nunca ganhei. A Regiane abriu porta para todo mundo. Falei: que isso seja abertura, porque esse prêmio não é de mulher ou de homem, é de repórter. Teve uma época que eles consideraram fazer melhor repórter feminina, masculino. Não, está errado. Todo mundo está fazendo o mesmo trabalho. Nessa hora eu tirei um peso meu e de todo mundo: agora vamos respeitar que as mulheres estão aqui para tomar o espaço delas como em qualquer outra profissão. A matéria da ginástica, eu acho que não precisava isso para mim. Mas algumas pessoas precisavam. Então quando eu penso nisso, penso: que bom, agora não sou mais a menina do computador. Eu acho graça de quem pensava nisso, vou continuar achando graça. Bom humor a gente não pode perder nunca.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre as autoras

Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Renata Mendonça é apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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