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Jaqueline: ‘Achavam que eu estava lá por ser bonita, mas eu era uma atleta'

Renata Mendonça

16/08/2018 12h58

Foto: AFP

Bicampeã olímpica, pentacampeã do Grand Prix, medalhista de prata em dois Mundiais, Jaqueline é uma das jogadoras mais completas que o vôlei brasileiro já viu. Essas são apenas algumas de suas conquistas em quase 20 anos de carreiras com a seleção, camisa que veste desde os 14 anos de idade, primeiro com a juvenil, depois com a principal desde os 17.

Mas por alguns anos, ela precisou provar dentro de quadra que estava ali pelo seu talento no esporte, e não pelo rótulo que a mídia insistia lhe dar. "Jaqueline, a musa do vôlei", foi um termo muito usado em todas as manchetes da imprensa nacional e isso acabou atrapalhando um pouco a carreira da atacante.

"É um rótulo que a mídia coloca, é natural isso acontecer, mas todo ano eu tinha que estar provando que eu não sou só um rostinho bonito. Eu já escutei muitas jogadoras, eu na rede, e jogadoras atrás dizendo 'olha lá a musinha, não consegue fazer isso, não consegue fazer aquilo'. Eu escutava direto. E por um rótulo que não fui eu que coloquei", contou Jaqueline, em entrevista às dibradoras.

"Todo ano eu tinha que provar, não era nem pra mim, eu sabia do meu potencial, o que eu poderia dar, mas eu tinha que provar pra essas pessoas que eu estava ali porque eu sou uma atleta, tão boa quanto as outras e que poderia conquistar tudo. Eu chorava todo dia, foi um período muito complicado da minha vida."

Jaqueline é bicampeã olímpica com a seleção no vôlei (Foto: AP)

O rótulo de "musa" é frequentemente usado para definir atletas do esporte feminino. Faz-se uma lista "das mais belas" do vôlei, do basquete, da ginástica. Mas em geral, o que se esquece de falar é sobre a importância dessas atletas para suas respectivas modalidades. Os feitos delas no esporte são preteridos e só o que se destaca é a "beleza". E é essa a crítica que Jaque faz.

"Não é não gostar de ser bonita, é que a gente é sempre avaliada por isso primeiro. Eu sempre fui muito vaidosa, desde que eu nasci. Eu pegava a toalha da mesa e fazia saia, pegava maquiagem da minha mãe. Sempre gostei muito de me cuidar. Mas eu sempre tive que provar que eu não estava no esporte porque eu era um rosto bonito, mas sim porque eu era uma atleta de verdade. E tudo isso por causa de um rótulo que não fui eu que criei", desabafou.

Em tantos anos de seleção e de conquistas, Jaqueline fez parte de um dos times mais vitoriosos da história do esporte brasileiro e agora se despede (ao menos momentaneamente) da seleção com a certeza de que jamais foi apenas "um rosto bonito" em quadra. Na conquista do bicampeonato olímpico em 2012, ela foi inclusive fundamental para a equipe, defendendo a bola que salvou o Brasil da derrota nas quartas-de-final para a Rússia, e sendo a protagonista da final contra os Estados Unidos, quando saiu de quadra eleita a melhor jogadora.

Agora, seis anos depois daquela conquista, ela decidiu que esse é o momento de parar – ou ao menos de dar um tempo com os compromissos da seleção brasileira.

A atacante foi protagonista na decisão olímpica em 2012 (Foto: AP)

"Tudo o que eu tinha que fazer na seleção, eu fiz. Eu senti no meu coração que meu filho também precisava de mim", contou.

Arthur, filho de Jaqueline e do também jogador Murilo, tem apenas quatro anos de idade e agora está começando a entender as ausências do pai e da mãe por conta dos compromissos com o vôlei. E ele sofre bastante com isso.

"Nessa última viagem que eu fiz com a seleção, o Murilo também estava fora, e meu filho sentiu muito isso. Eu falava com ele pelo vídeo do whatsapp, e ele chorava. É muito difícil nessas horas".

"Eu não sei (se vou voltar), se eu jogar como líbero, pode ser que eu me adapte bem e volte. Não sei como será. Eu estou deixando a seleção em 2018, então se eu tiver que voltar, só Deus sabe, mas também se não for mais, foi bom enquanto durou", diz, tranquila.

Maternidade de atleta

A gravidez é sempre uma questão complexa na vida de uma mulher por conta das consequências profissionais que ela acaba tendo – uma pesquisa recente mostrou que três em cada sete mulheres têm medo de engravidar e serem demitidas. Como atleta, a questão é ainda mais complexa, porque o corpo é o instrumento de trabalho dessas mulheres e é sempre difícil encontrar o melhor momento para que uma gravidez não interfira tanto no desempenho delas no esporte.

Jaqueline passou por duas situações. Na primeira vez, engravidou em 2011, planejando já estar de volta para os Jogos Olímpicos do ano seguinte, mas acabou perdendo o bebê num aborto espontâneo com menos de dois meses de gestação. Depois, a decisão de tentar novamente veio em 2013.

"Eu já tinha parado dois anos por causa dos meus problemas no joelho (lesões no início da carreira), então não iria parar para ter meu filho? Eu planejei tudo e fiquei nove meses fora", relatou a jogadora.

Só que o tempo que esteve grávida, Jaqueline não contou com apoio de nenhum clube. Quando terminou a temporada pelo Osasco e avisou que seria mãe, seu contrato não foi renovado – um drama que a maioria das atletas vive quando quer ser mãe.

Foto: Arquivo Pessoal

Depois que Arthur nasceu, houve de novo a dificuldade para conseguir um clube, e Jaqueline só foi empregada novamente quando foi contratada pelo Minas – o que acabou significando uma mudança para Belo Horizonte, e a separação da família por um período (bem quando Arthur ainda era bastante pequeno).

"Não tinha vaga em clube nenhum. Aí eu vi como foi difícil aquele retorno. Eu não tinha segurança de nada durante a gestação, e isso que foi o mais complicado. Mas acabou que deu tudo certo, fui para o Minas no fim do ano", afirmou.

"Foi bem complicado porque o Arthur tinha acabado de nascer e o Murilo queria acompanhar o crescimento do filho, mas eu também queria muito jogar, porque eu estava jogando muito bem, fiz um ótimo Mundial, aí queria jogar de qualquer jeito, então fui pro Minas. Foi um período difícil, mas passou e valeu a pena."

Ainda sem clube para jogar em 2018, Jaqueline não sabe se estará em quadra na próxima temporada da Superliga – que começa em novembro -, mas diz que está com projetos também fora do vôlei. E por enquanto, ela evita de cravar a aposentadoria de vez. "Eu tenho só 34 anos, as pessoas ficam na pressão de: você vai parar de vez? por favor, continue jogando. Mas eu não sei o que vai ser. No momento, estou com alguns outros projetos, algumas propostas de clubes também, vamos ver o que acontece. Não dá para fechar nenhuma porta".

Acompanhe o papo completo com Jaqueline aqui:

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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