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Ela descobriu o pole dance aos 70 anos e virou exemplo: 'Me sinto leve'

Renata Mendonça

10/08/2018 05h00

Foto: Marcos Bellusci

Quando criança, Beatriz Couto se encantava ao ver mulheres dançando nas barras de boates em cenas de filme e se imaginava fazendo o mesmo. Mas na década de 1950 e 1960, aquilo era visto como "dança de mulheres da vida" e não era propício para "moças de família".

Mal poderia imaginar àquela época que, aos 70 anos de idade – ou 71, para ser mais precisa -, ela teria a chance de viver o sonho de criança que sempre conservou: o de subir em uma barra e dançar de pernas para o ar.

O pole dance como esporte entrou na vida de Beatriz para ficar há três anos, quando uma vizinha disse que ofereceria aulas da modalidade em sua academia em Belo Horizonte. A "vó Bia", como gosta de ser chamada, não teve dúvidas: "Falei para ela que eu seria a primeira fazer a matrícula na turma".

Hoje, aos 74 anos, Bia se vê dando piruetas, ficando de cabeça para baixo e pernas para o ar e se sente voando. Com o marido na cama há 8 anos (ele sofre do mal de Parkinson e já não consegue mais fazer nada sozinho), ela encontrou no pole dance o respiro de vida que lhe faltava.

"O melhor é o bem-estar que me traz. Eu me sinto leve. Dona do meu nariz, voando, vendo as estrelas de cabeça pra baixo. Meu marido está doente, na cama, é muita confusão na minha cabeça, são empregados tomando conta dele, muito gasto, muita pressão, cinco filhos, e cada um dá um palpite, é muito difícil. Mas no pole eu encontrei um lugar feliz pra mim", afirmou ela às dibradoras.

"São horas que eu passo e dá aquela vaidade, eu me sinto orgulhosa. As pessoas admiram pela idade que eu tenho e conseguir fazer o que eu faço. Eu fico toda cheia de vida."

Na infância, Beatriz sempre foi aventureira, gostava de subir em árvore, pular de galho em galho e era apaixonada por esportes. Gostava de nadar, de jogar vôlei, ping pong, e fazia tudo isso e mais um pouco. Mas ela cresceu em uma época em que as mulheres casavam muito cedo e, aos 18 anos, deixou a casa dos pais para viver com o marido.

A partir daí, sua rotina mudou. Com 28 anos, já tinha seus cinco filhos para criar. Trabalhando como professora e cuidando da casa nas horas vagas, Bia não encontrou mais tempo para praticar esportes. Foram trinta longos anos sem qualquer atividade física na rotina – dos 18 aos 49. Até que, com a aposentadoria e a saída dos filhos de casa, ela não teve outra saída senão procurar o que fazer.

 

"Aos 49 anos, eu casei minhas filhas e fiquei muito deprimida. É difícil ficar na casa vazia. Aí eu fui para o Sesc e me matriculei na turma da terceira idade. Primeiro, eu fazia dança de salão, aí fiz flamenco, tango, ioga… eu estava à toa aposentada e comecei a preencher a minha vida com essas coisas", contou.

Pole Dance

Tem muita gente que vê o pole dance apenas como uma dança sensual que remete imediatamente às boates do passado – e algumas do presente também. Mas ele é também uma modalidade esportiva. Existem campeonatos de pole dance no mundo todo em que a dança é levada de uma maneira mais acrobática e as atletas são avaliadas pelos seus movimentos e também pela interpretação artística deles.

"É bem parecido com a ginástica artística. Tem todo um regulamento do pole. A pontuação é feita de acordo com o nível de dificuldade e também com a execução do movimento. E aí tem avaliação da parte artística, a música, o figurino, a maquiagem e a interpretação", explicou às dibradoras Rebecca Nogueira, campeã brasileira e sul-americana de pole e uma das professoras da vó Bia na academia.

"No pole fitness (o que é ensinado nas academias), eu ensino os movimentos, é uma atividade física lúdica e é, ao mesmo tempo, uma superação. Às vezes a pessoa chega cheia de medo e, de repente, está virando de cabeça para baixo. Vai evoluindo", conta a professora, que hoje é atleta da modalidade e vai disputar o Mundial da categoria em novembro representando o Brasil nos Estados Unidos.

(Apresentação de Rebecca, campeã latino-americana de pole dance)

Esporte tem idade?

À primeira vista, pode parecer para quem chega à aula sem conhecer, que aquela senhora de 74 anos é o "café com leite" da turma. Ninguém imagina que ela possa fazer os movimentos que faz. Quando sobe na barra, vó Bia deixa as outras alunas da academia perplexas pela sua coragem e elasticidade.

"As novatas quando chegam tomam maior susto quando me veem lá. Aí eu me apresento pra elas: sou a vó Bia. Aí elas falam: você que foi minha inspiração, eu vi no Instagram. Várias me falaram isso. E as outras ficam encantadas quando veem o que eu consigo fazer", diz ela, orgulhosa.

No pole, Bia diz que se sente livre e não tem medo nenhum de cair ou se machucar – os outros em volta é que ficam com medo por ela. "As professoras que têm medo e ficam me dizendo: 'ai Beatriz, não faz isso'. Eu respondo: 'deixa. Se eu morrer, vou morrer feliz'", conta, aos risos.

Foto: Arquivo Pessoal

Logo que começou, o maior desafio para Bia nem era lidar com a altura da barra. Mas o movimento de "jogar o bumbum para cima" era aquele que ela não conseguia fazer de jeito nenhum.

"Até instalei uma barra em casa para praticar", relata. Hoje, ela já faz isso com tranquilidade – e também levou o resto da família para o esporte. A neta, a nora e a sobrinha já aderiram à modalidade.

"Minha neta começou um pouco depois de mim. Ela me viu fazendo e logo quis fazer também. Hoje ela é maravilhosa dançando. Depois levei minha nora e minha sobrinha. Eu brinco que a gente deveria fazer um poster da família dançando para deixar na sala".

Foto: Arquivo Pessoal

Inúmeros estudos comprovam que o esporte funciona quase que como uma terapia para a mente. A liberação de endorfina no organismo promove a sensação de bem-estar e, no caso de pessoas idosas, dá um gás diferente para seguir em frente com qualidade de vida. Esse foi o impacto do pole dance na vida de vó Bia. Ela passou os últimos oito anos cuidando do marido na cama e teve de aprender a lidar com essa situação sem se deprimir. O esporte ajudou muito nisso – e agora ela não quer mais parar.

"Agora eu quero ir até os 90. Eu falo sempre com as meninas: enquanto a gente tem saúde, a gente é capaz de fazer tudo. Cada dia que passa eu vou melhorando um pouquinho, é devagar, mas eu consigo. Isso me faz muito bem – e, para a cabeça, então, nem se fala. Eu encontrei felicidade em um lugar que eu sempre sonhei inclusive, era meu sonho desde criança. E me sinto jovem."

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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