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Brasileiros precisam entender que assédio não é brincadeira

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18/06/2018 09h51

Nos últimos dias, circularam pelas redes sociais pelo menos dois vídeos bem parecidos de torcedores brasileiros na Copa do Mundo da Rússia aproveitando das diferenças de idioma para submeter mulheres russas a um constrangimento que elas próprias não conseguiam entender qual era – por causa da óbvia falta de entendimento de português.

Em um deles, homens com a camisa do Brasil aparecem gritando ao redor de uma russa as palavras “b***** rosa'' e fazendo com que ela repetisse a mesma coisa sem saber o que significava. No outro, dois brasileiros aparecem ao redor de três russas e pedem para que elas repitam com eles: “eu vou dar minha b***** para vocês''. Obviamente, de novo, elas não faziam ideia do que estavam dizendo.

Recebi um desses vídeos em um grupo com o seguinte comentário: “o brasileiro é muito bom''. E rolaram umas risadas porque, veja que situação engraçada essa, constranger uma mulher em público sem que ela possa ter consciência disso (do que está falando ou a que está se submetendo). É realmente muito divertido, não é mesmo?

Então vamos imaginar a situação: você recebe o vídeo de um amigo dizendo que “o brasileiro é muito bom mesmo'' e, quando abre o arquivo, dá de cara com sua mãe, sua filha, sua irmã, sua namorada, sua esposa na mesma situação em que essas russas. E aí, continuaria rindo? Continuaria mesmo achando o “brasileiro muito bom''?

Não deveria ser necessário fazer esse exercícios de substituição das mulheres envolvidas em uma situação de constrangimento (violência) por alguma do meio de convivência dos homens para eles entenderem o problema. Mas infelizmente na maioria das vezes é. E é de se duvidar que algum desses caras que riram do vídeo teriam tido a mesma reação se a mulher que está nele fosse alguma de sua família.

“Gente, mas é só uma brincadeira, parem de mimimi''. Ok, vamos ser didáticas. Uma brincadeira só é uma brincadeira quando todo mundo se diverte com ela. Se há alguma situação desconfortável para alguma das partes, isso não é brincadeira, nem piada, é problema. Se a risada só acontece porque você não conhece a mulher envolvida (porque, se fosse a sua, você não acharia engraçado), então não dá para considerar isso como uma pura e inocente brincadeira. Até porque as mulheres que participaram do vídeo sequer tinham noção daquilo a que estavam sendo submetidas. Elas não sabiam o que estavam dizendo, não sabiam do cunho sexual do que estavam repetindo, não tinham ideia do papel que teriam naquele vídeo.

A única forma dessa “brincadeira'' ser aceitável seria se as mulheres envolvidas tivessem total consciência do que estivessem falando e concordassem com isso. Claramente não é o caso – e duvido que alguma teria participado do vídeo se soubesse exatamente o que estaria fazendo ali.

Sendo assim, não foi uma brincadeira, foi assédio. Aproveitaram-se da vulnerabilidade de mulheres que não falam a sua língua para submetê-las a uma situação a qual elas não se submeteriam se entendessem o que os homens envolvidos estavam dizendo – isso não é piada, é violência.

O problema de tratar assédio como 'brincadeira'

Vou colocar aqui um ponto de vista (sob o aspecto da minha experiência) da “piada''.

Sempre treinei vôlei, desde a infância. Um dia, aos 12 anos, estava indo a pé para o treino, de short e joelheira (o uniforme de treino), quando um homem que andava atrás de mim começou a dizer: “quero chupar essa b***** todinha''. Eu não sabia o que era b***** . Não sabia o que ele queria dizer com isso. Mas morri de medo, atravessei a rua, apertei o passo, fechei os olhos e desejei que a entrada da quadra estivesse logo ali.

Eu não contei isso pra minha mãe, nem para o técnico, nem para ninguém. Me guardei naquele medo e, a partir daquele dia, aprendi que minha rotina teria de ser sempre assim. Que eu teria de ouvir homens repetindo essas coisas – esses “elogios'' como alguns chamam – todos os dias e tudo o que eu poderia fazer era apertar o passo e rezar para que eles ficassem apenas nas palavras.

Desde os 12 anos, ou até antes, minha vida foi assim. A vida da sua irmã foi assim. Da sua mãe. Da sua futura esposa. De todas, absolutamente todas, as mulheres ao seu redor.

Muita gente trata como “brincadeira” um homem fazer um comentário sobre o corpo de uma mulher, sua aparência, seu estado civil na rua sem que ela lhe desse qualquer abertura para fazer isso. E não se dá conta que isso constrange, intimida, dá medo. Isso vai um dia fazer com que elas pensem duas vezes sobre a roupa com a qual vão sair de casa. Isso faz com que elas repensem se vão mesmo sair de casa. Tenho amigas que até hoje colocam uma calça em cima do short quando vão treinar para evitar os comentários indesejados no transporte público. Vocês, homens, já pensaram em fazer isso alguma vez? Em se agasalhar para não mostrar o corpo por medo do que poderia acontecer na rua?

E a questão aqui é que, quanto mais “rirmos” de situações assim, mais elas serão naturalizadas como piadas e menos serão encaradas como problemas – que efetivamente são. Mais meninas, como eu, aprenderão a conviver com comentários no dia a dia sobre seu corpo – porque “é normal”; aprenderão que ouvir do chefe uma cantadinha ou outra é “ok''; que sentir olhares devoradores na sua direção “faz parte''. Tudo é só brincadeira, é só elogio, é só uma piada.

Mas as estatísticas contrariam a graça dela por enquanto. Uma pesquisa da ONG Think Olga mostra que 99,6% das mulheres já foram assediadas na rua. Mais de 80% delas muda de rota ou de roupa para fugir do assédio. São 135 estupros registrados por dia em todo o país. Nada disso é piada, nada disso é risível.

Essas “brincadeiras” são parte do problema crescente de casos de assédios (moral ou sexual) que meninas e mulheres sofrem todos os dias. Naturalizar essas situações em forma de piada é ignorar a violência que isso representa para nós.

Então, ao receber vídeos como esses, pense duas vezes antes de rir e compartilhar. Poderia ser sua mulher, sua filha, sua irmã. Você gostaria que isso acontecesse com elas? Então não deixe acontecer com outras.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte. Nayara Perone herdou o corinthianismo do avô. Designer, zagueira-zagueira, dibradora, corinthiana, maloqueira e sofredora. Aqui é 90 minutos cantando na arquibancada na torcida e bicuda pra frente no jogo.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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