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Repórteres relatam ausência de banheiros femininos nos estádios

Renata Mendonça

08/06/2018 10h17

Fernanda Varela sofre com a falta de banheiros femininos no Barradão

Algumas necessidades são chamadas básicas – e não recebem esse nome à toa. A mínima condição de trabalho que todo mundo precisa é pelo menos acesso livre a comida, água e banheiros. Mas no jornalismo esportivo nem todos os profissionais conseguem contar com isso.

O movimento #DeixaElaTrabalhar, que surgiu há um mês para lutar contra o preconceito contra as mulheres no jornalismo esportivo, levantou nesta semana um novo debate: a ausência de banheiros femininos em algumas áreas de imprensa de estádios no Brasil e no mundo.

O caso mais emblemático acontece no Barradão, estádio do Vitória, em Salvador. Conforme relata a repórter do jornal 'Correio' Fernanda Varela, na área de imprensa de rádio e escrita há dois banheiros – ambos masculinos.

"Eu tenho 3 opções: ou não bebo água o jogo todo; ou posso usar o banheiro e, ao abrir a porta me deparar com colegas no mictório (já aconteceu); ou costumo pedir pra alguém ficar na porta e impedir a entrada de pessoas enquanto uso", contou.

Uma situação um tanto constrangedora para se passar em pleno local de trabalho. Mas há décadas é isso que vem acontecendo com as repórteres que cobrem o Vitória no Campeonato Brasileiro. De acordo com as jornalistas, após insistirem com a reclamação, a diretoria afirmou que tomaria uma atitude. Ao UOL Esporte, o clube afirmou que "há um processo em andamento para a implementação de um banheiro exclusivo para as jornalistas mulheres".

No moderno Allianz Parque, estádio do Palmeiras inaugurado em 2014, também há reclamações. Na área das cabines de rádio  também não há banheiros femininos e as mulheres acabam usando o mesmo dos homens. Em jogos de Libertadores, em que as repórteres de rádio não podem ficar no gramado, as soluções são as mesmas adotadas pelas jornalistas no Barradão.

No Rio de Janeiro, a assessora da base do Vasco, Sarah Borborema, conta que isso é algo comum nos estádios onde acontecem jogos das categorias juniores.

"Enfrentamos muito isso em jogos da base. Em alguns locais os banheiros femininos ficam trancados. Aí temos que esperar os atletas saírem do vestiário para usar o banheiro", diz.

Em Manacapuru, no Amazonas, jornalistas também relatam falta de banheiros para elas no estádio Gilberto Mestrinho.

Já no Moisés Lucarelli, estádio da Ponte Preta, até existe um banheiro feminino na área de imprensa – mas ele tem uma janela de vidro que fica em frente à escada de acesso para as cabines, o que não possibilita uma situação muito confortável para as mulheres que o utilizam. Procurada pela reportagem do UOL Esporte, a agremiação de Campinas lamentou o ocorrido e prometeu providências imediatas.

"Esta é a primeira vez que ficamos sabendo que existe um desconforto e, desde já, pedimos desculpas pela situação. O vitrô do banheiro feminino tem vidro ondulado e uma grade externa, o que impediria uma visão de dentro do local, mas, independentemente deste fato, se há o desconforto vamos tomar medidas para resolver a questão: providenciaremos uma persiana para cobrir o vitrô, que já será colocada e a partir do próximo jogo as jornalistas poderão utilizar a facilidade sem ter que passar por esta sensação de desconforto. Gostaríamos de reiterar ainda que a Ponte Preta, por meio de sua assessoria de imprensa, está sempre à disposição para ouvir as repórteres inclusive neste tipo de demanda que, se tivesse sido trazida antes, já teria sido resolvida assim que tivéssemos tido conhecimento dela", declarou Márcio Pagano, diretor de patrimônio, ao UOL Esporte.

Até mesmo no país-sede da Copa do Mundo que começa daqui uma semana há reclamações sobre a falta de banheiros femininos para as jornalistas. Tatiana Furtado, repórter do 'O Globo', diz que na sala de imprensa do estádio do CSKA Moscou, os locais disponíveis para as necessidades básicas também são escondidamente masculinos.

"Na sala de imprensa, dominada por homens – só vi mais duas mulheres além de mim ali -, duas portas: uma com um bonequinho e a outra sem nada, desativada. Precisei procurar outro banheiro, fora dali. Mas me pareceu claro o recado. Para o clube, ali não é nosso lugar de direito", relatou.

Deixar a mulher trabalhar significa oferecer as condições básicas para que ela possa executar sua função – um banheiro adequado seria uma exigência mínima a se fazer em um estádio de futebol.

E esse problema chega a ir além da imprensa. Os banheiros femininos na área de torcida também costumam ser raros e muito mal conservados. Encontrar papel em algum deles é raridade. Sabonete, então, é item em extinção.

Aliás, uma das maiores reclamações das torcedoras é justamente a situação dos sanitários nos estádios. Uma pesquisa da Pluri Consultoria de 2012 mostrou que 81% das mulheres que não iam ao estádio relatavam a condição dos banheiros como motivo principal pra isso.

Sem falar na situação para as mulheres que decidem jogar futebol. Já houve um caso em 2015 em que as jogadoras precisaram se trocar em uma tenda improvisada no estádio Independência porque não foram autorizadas a utilizarem o vestiário – reservado para o jogo masculino que aconteceria logo depois do feminino. Para as atletas amadoras do futebol, então, a condição é ainda pior. Nas quadras society que existem por aí é muito raro encontrar uma que ofereça vestiário para as mulheres.

Diante de tudo isso, quando dizem que mulher não gosta de futebol, eu digo que a mulher resiste no futebol. Porque apesar de todos esses obstáculos, nós estamos aqui – sempre estivemos e cada vez mais estaremos. Está mais do que na hora de sermos reconhecidas por isso e acolhidas por esse esporte que deveria ser de todos, sem distinção, na arquibancada ou no microfone.

*Colaborou Beatriz Cesarini, do UOL Esporte

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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