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Memórias que nem Alzheimer apaga: torcedora volta a São Januário aos 86

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18/04/2018 10h28

Dona Zizi no retorno a São Januário (Foto: Arquivo Pessoal)

Conheci a história de dona Zizi no ano passado, quando vi o compartilhamento de uma foto dela no Facebook de um amigo em comum. Fiquei encantada com a história e conversei com as duas filhas dela, que a levaram no estádio para reviver todas essas memórias.

Depois de um post na página das ~dibradoras, a história repercutiu e chegou até o Juninho Pernambucano, o próprio, que prometeu ele mesmo dar um abraço pessoalmente em dona Zizi. O futebol é assim mesmo, ele conecta as pessoas das maneiras mais inesperadas.

O meu encontro com a matriarca vascaína e suas filhas aconteceu antes do de Juninho – e a gente espera poder ver de perto esse abraço entre os dois. Mas o que fica disso tudo é mais uma dessas lições que o futebol nos ensina todos os dias: o que nasce dele, não morre jamais.

Para quem ainda não acredita nisso, vejam o que ele fez com dona Zizi:

Fátima e Elione cresceram vendo a mãe sair de casa todos os domingos logo depois do almoço e voltar só para o jantar – umas vezes mais alegre do que nunca, outras mais irritada do que o de sempre.

Por algum tempo, elas perguntavam (e imaginavam) para onde dona Zizi estava indo e insistiam para poderem ir junto. “São Januário”, respondia o pai botafoguense enciumado. Dos dez filhos que criaram juntos, só uma virou botafoguense, uma acabou flamenguista para não contrariar nenhum dos dois, e a grande maioria seguiu aquela chamada de “matriarca da família”.

“Eu pedia (para ir) e ela não queria me levar, mas um dia eu insisti, me comportei bem e ela me levou. Assim que eu entrei em Sao Januário, assim que eu vi a torcida… eu não imaginava o tamanho do Vasco. Foi amor à primeira vista”, contou Fátima, que passou a ser frequentadora assídua da arquibancada ao lado da mãe e da irmã mais nova, Elione.

A família toda virou vascaína por causa de dona Zizi (Foto: Arquivo Pessoal)

Não tinha tempo ruim que as tirassem dali aliás. Dona Zizi estava em todos os jogos do Vasco, dentro e fora de casa. Ia de ônibus, fazia caravana, liderava os gritos…tanto que foi adotada como “mãe” pela torcida organizada, por tudo o que representava na arquibancada.

Mas há algum tempo, dona Zizi não consegue mais ir ao estádio. Seu diagnóstico não é muito exato, mas, há seis anos, o Alzheimer (ou algum outro tipo de demência) passou a lhe tomar a memória aos poucos. Foi pouco depois de ter completado 80 anos, de ter recebido a taça de campeão da Copa do Brasil das mãos de Juninho Pernambucano e de ter celebrado sua última conquista como vascaína assídua em São Januário.

Desde então, a memória lhe trai com as filhas. São muitas, afinal, e por vezes ela não consegue nomeá-las. Mas as duas mais fanáticas tiveram uma ideia recentemente para tentar resgatar um pouco o que ainda restava nos registros memoráveis de dona Zizi. Assim como ela própria um dia cedera e as levara a São Januário, desta vez seriam elas, Fátima e Elione, que fariam isso com a mãe.

Visita

A família, de início, ficou apreensiva. Dona Zizi não anda mais, fala quase nada e muitas vezes sequer abre os olhos. Que ideia essa de levá-la para São Januário. Mas Fátima e Elione insistiram – sentiam que ali era o lugar onde ela sempre gostara de estar e que poderia despertar suas melhores lembranças.

A visita aconteceu em setembro do ano passado, quando o Vasco fazia uma exposição de camisas históricas em São Januário. As duas aproveitaram a oportunidade e decidiram encarar a missão – e a emoção – de levar a mãe de volta para São Januário. Logo na entrada do estádio, a surpresa.

“Quando minha mãe entrou, quando ela viu, ela fica às vezes com o olhinho muito fechado, mas quando ela chegou e viu São Januário, o olho dela ficou muito aberto. Ela olhando, olhando e a gente deixando ela quieta para sentir todo o clima. Aí eu perguntei: a senhora sabe onde a gente está? E ela disse: São Januário”, relatou Fátima.

Fátima e Elione com a mãe em São Januário (Foto: Arquivo Pessoal)

Elione logo se arrepiou ao ver a reação da mãe com um lugar tão conhecido, que tinha ares de “segunda casa” e que parecia fazer dona Zizi lembrar que ali, bem ali, ela havia sido muito feliz ao longo de seus 86 anos.

“É um olhar diferente do cotidiano, de alegria, de lembrança. Parava, olhava. A foto que eu tirei de costas, ela estava olhando para aquelas imagens com um olhar profundo. A gente não sabe imaginar o que ela estava pensando, mas com certeza a memória dela ali veio”, contou Elione.

“Ela esquece muita coisa. Mas se você fala para ela: vou te dar uma camisa do Flamengo, ela responde na hora: é ruim, hein! Aí a gente diz: Qual seu time? Vasco. Ela não esquece. É impressionante.”

Memórias

É verdade que dona Zizi já confundiu os nomes das filhas ou não soube responder quando uma delas a perguntava: “quem é essa aqui?”, apontando para si mesma. Mas tem uma pessoa que parece ter ficado de vez na memória dela para sempre – e não é nenhum de seus filhos.

“Ela sempre se lembra do Juninho (Pernambucano). Não sei se é porque foi ele que entregou para ela o troféu da Copa do Brasil e a acolheu tão bem na homenagem que eles fizeram há seis anos, mas é o último ídolo que ficou na cabeça dela”, descreveu Fátima.

O encontro de Juninho com dona Zizi, quando a memória dela ainda estava fresca (Foto: Arquivo Pessoal)

“Eu mostrei uma camisa número 8 para ela com uma foto e perguntei: quem vestia essa camisa? E ela falou: Juninho Pernambucano. Na hora. Aí a gente canta o hino pra ela, ela chora, ela canta junto…”

O futebol sempre mexeu com dona Zizi de um jeito inexplicável. Não à toa ela nunca deixou de acompanhar o Vasco e arrastou a família toda junto. Até mesmo amigas das filhas dela hoje se dizem “Vasco” por influência da maior vascaína que já conheceram.

Mas é claro que esse esporte bretão muitas vezes foi ingrato com ela e com as filhas. Foram dois rebaixamentos, muito sofrimento e alguma revolta também com dirigentes e jogadores nesse meio tempo. Só que o Vasco – e o futebol – trouxeram para dona Zizi e a família as melhores memórias que elas têm até hoje. As comemorações, os sorrisos, os gols inesquecíveis – que nem mesmo o Alzheimer foi capaz de apagar.

(Foto: Arquivo Pessoal)

“A gente ficou com um sentimento de gratidão, de alegria, como se estivéssemos resgatando o tempo que na verdade ela nos levava para São Januário. Ela era responsável por nós, levava a gente para os jogos. Quantos momentos já não vivemos ali? E agora foi ao contrário, nós a estamos levando…só a gente que está envolvida nessa paixão toda sabe o significado que tem quando se entra em São Januário. É uma coisa surpreendente. A gente entra ali com a sensação de que é a segunda casa. É o nosso lugar”, disse Elione.

Foi provavelmente assim que dona Zizi se sentiu no momento em que sua cadeira adentrou São Januário no último final de semana. Um sentimento de estar “no seu lugar”, onde sempre foi sua casa, e de onde seu coração nunca vai sair. O futebol – e o Vasco – fizeram dona Zizi ganhar vida novamente.

“Quando acabou tudo, eu falei: será mesmo que minha mãe tá sabendo onde ela tá, será que eu não to vendo o que eu quero que ela sinta? Aí chegamos para almoçar no restaurante em São Januário e eu falei de novo: mãe, você sabe onde você está? Ela: Sei. São Januário. Foi uma resposta com tanta força que ela falou que eu pensei: valeu muito a pena ter trazido.”

“Eu admiro muito a minha mãe, eu tenho ela como referência. Ela gerou vários vascaínos, até hoje tá saindo vascaíno aí por causa dela. Essa foi uma das grandes heranças que ela nos deixou.”

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte. Nayara Perone herdou o corinthianismo do avô. Designer, zagueira-zagueira, dibradora, corinthiana, maloqueira e sofredora. Aqui é 90 minutos cantando na arquibancada na torcida e bicuda pra frente no jogo.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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