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Técnica do sub-17 garimpa talentos e pede investimento na base: ‘É urgente’

Roberta Nina

16/11/2020 04h00

(Foto: Laura Zago/CBF)

Vice-campeã olímpica e mundial com a seleção, Simone Jatobá completou um ano no cargo de treinadora da seleção brasileira feminina Sub-17 em agosto.

Atuando em alto nível dentro de campo até meses antes de receber o convite da CBF, Simone começou a pensar em seu pós-carreira em 2014, quando defendia o Metz, da França. Naquela época, ela não tinha a pretensão de se aposentar, mas já estava pensando em sua transição profissional.

"Não pensava em ser treinadora. Mas lá no Metz, eu procurei ter uma formação pensando em trabalhar com o futebol feminino. Pensei que se eu não buscasse melhorar e fazer algo pela modalidade, eu não iria ser feliz fora dos campos. E aí comecei a fazer cursos", contou a técnica às dibradoras.

Simone estudou Gestão Esportiva no Johan Cruyff Institute e é formada no curso de Licença A da UEFA. Ela chegou à CBF para ocupar o cargo de treinadora na seleção de base que ficou sem comando por quase um ano. Junto dela, sua auxiliar Lindsay Camila e Maravilha, treinadora de goleiras, precisaram começar praticamente do zero a montagem de uma nova equipe.

"Foi um grande desafio. Quando a gente chegou, não tinha nenhuma jogadora que ainda fizesse parte do nosso ciclo porque a idade de muitas havia estourado. Além disso, precisei montar minha comissão, viajar, assistir vídeos e jogos e ir atrás dos clubes. Cheguei no final de agosto e a primeira convocação para treinos que fiz aconteceu em outubro", relembrou.

Além desse início corrido, de lá pra cá, ela – assim como todo o mundo – precisou enfrentar os reflexos da pandemia do Coronavírus que atrapalhou os planos preparatórios que ela havia traçado para disputar as competições mais importantes com a base: o Sul-Americano em janeiro de 2021 e o Mundial da categoria.

Antes disso, o time terá dois jogos preparatórios contra o Chile no Centro de Treinamento da Seleção Chilena, nos dias 16 de novembro, às 15h, e 19 de novembro, às 9h. 

De jogadora a treinadora

Como atleta, Simone defendeu alguns clubes no Brasil, mas foi na Europa que fez uma carreira sólida. Foram 12 anos jogando em clubes de grande expressão, como o Lyon, onde atuou por cinco anos. Ela também passou pelo Rayo Vallecano por um ano e pelo Energiya da Rússia pelo mesmo período.

Simone Jatobá, ex-jogadora da seleção brasileira (Foto: Agencia EFE)

E foi na França que ela começou a se aperfeiçoar. Como obrigatoriedade do curso da UEFA, começou a treinar equipes de base menores até chegar a sub-19 e até recebeu propostas para treinar equipes francesas.

Antes de aceitar o desafio da CBF aos 38 anos, ela defendia o Metz há cinco temporadas e pensava em atuar por mais cinco anos. "Meu corpo conseguia (jogar) mais uns quatro, cinco anos, tranquilamente. Mas a minha cabeça já estava cansada. O corpo vai, mas se a cabeça travar, não adianta. Eu estava muito cansada da mesma rotina de sempre, pré-temporada, aquela coisa toda", afirmou a ex-atleta.

E assim, depois da Copa do Mundo, Simone veio para o Brasil de férias e pra pensar o que ia fazer: ser treinadora, gestora ou seguir jogando.

Dois dias antes de retornar para a França, recebeu uma ligação da CBF como sondagem. "Pra mim foi uma surpresa. Não estava esperando assumir uma seleção Sub-17, mas o projeto encaixou muito bem naquilo que eu já vinha fazendo. Na França é muito forte a parte de gestão, de treinamento, elaboração, projeto de jogo e casou muito bem com aquilo que eu estava vivenciando", revelou.

(Foto: ucas Figueiredo/CBF)

E o aceite precisou vir rápido, já que a apresentação da nova comissão da seleção principal – com Pia Sundhage – deveria ser feita juntamente com os novos comandos da Sub-17 e Sub-20. "Não tive como negar, seleção brasileira é seleção brasileira. É algo muito maior, é nosso coração mesmo!"

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O dia-a-dia em meio a pandemia 

Simone se define como uma treinadora de perfil tranquilo e valoriza muito o trabalho em equipe. E foi na divisão de tarefas que ela, Lindsay e Maravilha passaram a observar atletas pelo Brasil afora, em setembro e outubro deste ano.

"Muitas meninas não tem oportunidade de serem vistas. E aí está a importância da gente ir e olhar. Mesmo que seja um campeonato regional ou uma série de treinos. E nessas visitas eu ainda vi duas atletas com um potencial diferente", revelou a treinadora.

Mas é inegável que a evolução do trabalho foi comprometida já que, segundo Simone, a Sub-17 teve apenas seis convocações e três jogos amistosos. "É muito pouco! Esse é o receio que a gente tem porque precisamos que elas joguem para ter experiência."

Seleção Sub-17 em amistoso contra Portugal (Foto: Federação Portuguesa de Futebol)

Em janeiro deste ano, a Sub-17 fez um amistoso contra a Sub-20 e em fevereiro disputaram um torneio preparatório em Portugal. O time de Simone enfrentou as seleções da Áustria e de Portugal, ganhando por 2×0 das austríacas e perdendo por 3×2, de virada, para as portuguesas. 

"Ali a gente viu como é diferente quando jogamos um amistoso e quando estamos em um torneio, vestindo oficialmente a camisa da seleção. Em Portugal, era a primeira vez que 95% das meninas estavam viajando para fora do país. Quando a gente chegou no estádio, elas até assustaram. Estavam ganhando de 2×0 e perderam de 3×2. Teve um momento que deu um branco. Não é parte técnica e nem tática. É mental. Por isso eu exigi muito uma psicóloga e ela vai estar com a gente na convocação", revelou a treinadora.

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Assim como a seleção principal tem o trabalho psicológico com Marina Dusson, essa é a primeira vez que uma profissional desta área integra a comissão da Sub-17. "O entorno de cada uma das atletas é diferente e bem difícil. Tem garotas que sustentam uma casa com apenas 16 anos e diante disso tudo, precisamos ter um trabalho de grupo e individual, tentando colocar a cabecinha delas no lugar, mostrando onde estão e onde podem chegar. Elas precisam estar preparadas e saberem como agir", concluiu.

Brasil campeão do Sul-Americano Sub-17 (Foto: Fernanda Coimbra/CBF)

Além do mental, Simone frisa que o trabalho de base com o futebol feminino não é nada avançado. "Pegamos meninas de 16, 17 anos, com pouca coordenação e flexibilidade. Fizemos trabalho de fundamento e grande parte delas tem dificuldade em cabecear, então a gente tem que corrigir", disse.

Uma surpresa agradável para Simone e sua comissão foi a descoberta da jogadora Giovanna Queiroz, de 17 anos, que joga pelo Barcelona. E quem encontrou a garota foi a auxiliar-técnica, Lindsay Camila. "A gente brinca que a Lindsay é a 'rata da internet'. Ela estava na França, havia visto uns vídeos da Giovanna e pediu para ir até à Espanha para observá-la em campo. A CBF autorizou e a Lindsay assistiu ao jogo e treino dela pelo FC Madrid na época e conseguimos levá-la pro torneio em Portugal", contou. 

Em outubro deste ano, a garota foi convocada pela técnica Pia Sundhage e participou de um período de treinamento com a seleção principal. "Realmente ela tem perfil e corpo de atleta. Mostramos para a Pia, ela viu os jogos da Giovanna e pra gente foi uma recompensa por tudo que estamos fazendo. Ver uma menina de 17 anos ser convocada pela Pia é muito bacana!"

Giovanna, de 17 anos, convocada para a seleção brasileira (Divulgação Barcelona)

+ Como formar jogadoras? O desafio do Brasil na base do futebol feminino

Mas, a treinadora reforça que é urgente que os clubes do Brasil passem a trabalhar com afinco com o futebol de base feminino. "A gente precisar dar um passo porque se ficar esperando uma lei pra mudar o cenário é complicado. Por isso que eu sempre falo: os presidentes, os diretores, precisam ser visionários e ter atitudes, assumirem seus cargos de verdade e não precisarem ser obrigados para fazer alguma coisa. E o Brasil está ficando pra trás", opinou Simone.

"Na França funciona assim: os clubes e as ligas atendem as categorias sub-7, sub-9, sub-11, sub-13, sub-15, sub-17, sub-19, sub-20 e o profissional. Por exemplo, a Cascarino (jogadora da seleção francesa e do Lyon) veio da base do clube em que ela começou a jogar pequenininha. E hoje é um exemplo de investimento do clube e da importância de ter uma base. Tem outras também, como a Majri (jogadora da seleção francesa e do Lyon), que foi atleta da Lindsay pequenininha também. E na Europa já está começando esse movimento de empréstimo, de venda. Então acho que o Brasil precisa acordar, apostar e acreditar por que esse jeito de cuidar da categoria de base ainda está muito longe do ideal", concluiu.

Cascarino em ação contra o Brasil na Copa da França (Reprodução Instagram)

A cara do time

O primeiro desafio de Simone à frente da seleção Sub-17 é o Campeonato Sul-Americano, que garante vaga na Copa do Mundo e a treinadora admite que sua equipe já tem uma estrutura pré-definida.

"Gostamos muito dessa transição ofensiva e defensiva. Atacamos juntas e defendemos juntas. Tentamos implementar algo que achamos importante e que vimos lá fora que é a intensidade. A gente gosta disso, claro que depende muito da preparação física, de sentir dentro de campo o que é e o que não é pra fazer, mas nosso modelo de jogo está virado para a intensidade. Temos extremas rápidas, meias com qualidade, mas a gente ainda não fez jogos oficias, então avalio com base no que estamos vendo."

Simone em treinamento com a sub-17 (Foto: Reprodução Instagram)

Simone classifica seu 1º ano no comando de uma seleção brasileira como um período de muitas descobertas e aprendizados. "Treinador precisa de tempo para implantar o que ele gosta e quer. Acredito que estamos fazendo coisas boas, a gente já deu resultado como aconteceu com a Giovana e outras atletas já foram pra sub-20 pra treinamentos. Nosso trabalho é esse, construir um pilarzinho para que elas possam se desenvolver e corrigir os erros."

A treinadora não se preocupa como fato de não ter feito uma despedida oficial dos gramados. A cabeça já estava preparada para novos desafios e 2020 trouxe vários deles para Simone Jatobá. "Eu estou tão focada nessa minha fase como treinadora que não fico relembrando do meu passado como jogadora. Eu evito 'olhar para os lados' porque isso tira a concentração e quando eu vou para a Granja Comary, fico 100% ocada no que eu tenho pra fazer."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre as autoras

Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Renata Mendonça é apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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