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Jéssica Senra toca em feridas necessárias: 'Que valores o futebol tolera?'

Renata Mendonça

07/01/2020 19h17

Foto: Reprodução TV

A notícia de que o Fluminense de Feira de Santana contrataria o goleiro Bruno, condenado por ser o mandante do assassinato brutal de Elisa Samúdio, mãe de seu filho, repercutiu muito na Bahia. E como já virou praxe no jornal Bahia Meio Dia (da Globo local), a apresentadora Jéssica Senra abordou a questão polêmica com clareza e maestria.

"Desejamos e precisamos que pessoas que cometem crimes tenham a possibilidade de refazer suas vidas, mas diante de um crime tão bárbaro, tão cruel, poderíamos tolerar que o feminicida Bruno voltasse à posição de ídolo? Que mensagem mandaríamos à sociedade? Atletas são referências. Contratar para um time de futebol um assassino, um homem que mandou matar a mãe do seu filho, esquartejar, dar o corpo para os cachorros comerem é um desrespeito. É um desrespeito a nós mulheres", disse a jornalista.

 

O vídeo de aproximadamente dois minutos em que Jéssica Senra fala sobre a possível contratação de Bruno viralizou nas redes sociais. A repercussão foi tanta, que o clube desistiu do negócio. A jornalista deixa claro que não é contra a ressocialização do goleiro, mas vê como inviável a recolocação dele numa posição de prestígio como é a de um jogador de futebol.

"Pra mim, há duas questões importantes: a crueldade desse crime e a posição de prestígio que um jogador de futebol tem. Se fosse um crime que não atentasse contra a vida e a dignidade humana, talvez a gente não se incomodasse tanto. Ser jogador tanto é uma posição de prestígio que tem muita gente ignorando o resto só porque ele é jogador. Isso traz uma mensagem negativa para um país que, em média, mata uma mulher a cada duas horas", disse às dibradoras.

"Eu creio na recuperação das pessoas. Mas acho que a rejeição deste caso tem a ver com a postura dele. Quando a pessoa se arrepende, pede desculpas, quando você percebe que a pessoa está arrependida do que ela fez, é mais fácil acolher. E não vimos isso. Acho que isso também pesa pra nós. A gente não conseguiu ver humanidade ali".

O comentário de Jéssica já tem quase um milhão de visualizações no Twitter e foi endossado por muitos jornalistas esportivos e até celebridades. A argumentação dela foi tão concreta, que até mesmo advogadas defensoras da ressocialização para qualquer tipo de crime repensaram suas opiniões.

 

"Hoje, duas advogadas me disseram que mudaram de ideia sobre a contratação a partir dos meus argumentos. E no fundo, o meu objetivo é provocar reflexão. Eu acho importante a gente provocar reflexões na TV: fazer as pessoas pensarem. E até mesmo opinar e defender valores humanos. A gente tem que ter muita responsabilidade (nesses comentários), buscar conhecimento, buscar pessoas que falem também sobre isso. Fazer as pessoas pensarem, refletirem, com responsabilidade, empatia e com amor", pontuou.

"No caso do Bruno, que repercutiu tanto, eu não quis focar nele, embora a discussão partisse dele… Era mais importante discutir o que nós como sociedade toleramos ou não. Que valores a sociedade/futebol tolera ou nao tolera. Essa era a discussão."

Comentários sobre temas urgentes

Esse não foi o único comentário que Jéssica Senra fez na TV Bahia que repercutiu nacionalmente. A jornalista, que trabalha em TV há 10 anos e está na filial da Globo desde 2018, adota um formato opinativo na televisão e sempre fala de questões polêmicas, mas trazendo uma reflexão muito didática e interessante. Em uma outra situação, seu comentário sobre homofobia também gerou centenas de milhares de visualizações nas redes sociais.

"Segundo a vítima, o suspeito perguntou ao Marcelo se ele não tinha vergonha de fazer isso na frente de pais de família. Isso era carinho, era beijo. Quer dizer beijar, fazer carinho em alguém na cabeça do homofóbico, ofende. Mas agredir, tentar matar, não ofende? A homofobia é isso, é ignorância, falta de qualquer lógica. Uma das explicações pra homofobia é que ela tem a ver com o machismo, com a ideia de superioridade do homem sobre a mulher. Perceba que muitos homossexuais são chamados de 'mulherzinha', como se isso fosse algo ofensivo, como se ser mulher fosse uma ofensa. Porque o modelo de homem na nossa sociedade é  baseado na masculinidade viril e agressiva. Os homossexuais mais afeminados são, inclusive, mais discriminados do que aqueles que não são. Por isso que a gente sempre diz que o combate ao machismo precisa ser de absolutamente toda a sociedade. É uma coisa absolutamente irracional", afirmou ela no comentário.

Outro tema que também gerou muita repercussão foi a fala dela no dia da consciência negra, levantando uma reflexão sobre o papel das pessoas brancas na luta contra o racismo. O que Jéssica busca com isso é sempre levantar debates sobre questões que ela vê como urgentes na sociedade.

"Eu tive uma fase em que eu comentava com muita paixão. Isso ainda acontece. Mas quando falo de temas mais polêmicos, eu busco falar muito mais com razão, entender por que o outro pensa diferente, mostrar pra pessoa por que ela foi levada a ter aquela opinião. E procuro defender minha opinião de um ponto de vista mais humanitário. Meu sonho é que a gente viva numa sociedade de paz e justiça social, então o que eu busco sempre é ser empática sobre os temas. Evito julgar as pessoas. Procuro falar sobre os atos que as pessoas cometem e não sobre as pessoas. Todo mundo erra, então precisamos ser mais tolerantes e acolhedores", observou a jornalista.

As opiniões de Jéssica Senra geram muitos comentários positivos, mas também alguns ataques. Ela diz que sempre lê as críticas e que as responde quando sente uma tentativa de argumentação, de debate. Mas prefere ignorar aqueles que tentam silenciá-la com clichês do tipo: "você só quer lacrar".

"Teve um rapaz que falou pra mim 'pare de querer lacrar'. Se ele soubesse o quanto eu sou tímida, eu sou muito reservada. Essa exposição é muito difícil pra mim. Mas penso que meu ofício está além de mim como indivíduo, preciso que meu trabalho tenha um propósito, que contribua com a sociedade. Não tem nada a ver com ganhar seguidores", afirmou.

"O pare de querer lacrar' ou 'é tudo mimimi' são tentativas de silenciamento. O rótulo tem esse objetivo de te desmerecer, de te silenciar. Mas eu vou continuar falando enquanto tiver espaço pra isso. Vou continuar defendendo o que acredito. Vou continuar me colocando à disposição pra ser a voz de quem muitas vezes não é ouvido."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre as autoras

Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Renata Mendonça é apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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