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De telefonista a CEO: conheça Claudia Rohonyi, diretora do GP Brasil de F1

Roberta Nina

15/11/2019 04h00

(Foto: Osvaldo Luiz Palermo/GP Brasil de F1)

Desde 1972 o Autódromo de Interlagos é palco do Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 e há pelo menos 27 anos, uma mulher faz parte do staff que organiza um dos maiores eventos da capital paulista.

Claudia Rohonyi tem 51 anos e é formada em engenharia eletrônica. Ela sonhava em trabalhar na sua área, desenvolvendo robôs que pudessem substituir algumas funções do ser humano. Mas aos 24 anos de idade – prestes a se formar –recebeu de uma amiga um convite para trabalhar na organização do GP do Brasil.

Isso aconteceu no ano de 1992 e Claudia topou o "frila". Naquela etapa, a futura engenheira trabalhou atendendo telefonemas, passando recados para os organizadores e até mesmo servindo cafezinho. Foi bem avaliada e retornou no ano seguinte, desta vez, distribuindo credenciais. A ascensão foi rápida e, cinco anos mais tarde, ela assumiu o cargo de cuidar de toda a logística da prova.

Quando perguntada se tem paixão por carro e velocidade, a resposta é direta: "não, zero!". Mas o que fez essa mulher abrir mão de uma carreira na engenharia para viver um ano inteiro se dedicando a um evento que envolve motor de carro a todo instante?

"Eu não olho tanto o meu trabalho como Fórmula 1. Eu gosto da parte de logística e dos bastidores. Brinco dizendo que gosto de trabalhar na cozinha, que ninguém vê, é quente e muitas vezes desagradável. Eu gosto é da montagem e de organizar o evento", diz a CEO da da International Publicity, empresa responsável por gerir a etapa brasileira do campeonato

O começo

Claudia cresceu no Brooklin, em São Paulo, filha de pai espanhol e mãe japonesa, se formou em Engenharia Eletrônica na Faculdade de Mauá com a ideia de atuar na área. "Hoje eu olho e tudo parece tão distante. Mas eu imaginava que iria trabalhar com engenharia eletrônica para construir robôs que pudessem ajudar as pessoas nas tarefas do dia-a-dia. Pensava em criar coisas nesse sentido", revelou em entrevista às dibradoras.

Mas, foi a convite de uma amiga que ela entrou em uma área completamente diferente para nunca mais sair. Na época em que fez o primeiro trabalho com automobilismo, a gestão do GP Brasil de Fórmula 1 era comandada pelo húngaro Tamas Rohonyi, que foi o grande responsável por trazer a famosa corrida para o Brasil.

Autódromo de Interlagos (Foto: Beto Issa)

Prestes a se formar, ela passou duas semanas trabalhando como uma "faz tudo" na organização da etapa de 1992. Sem amarras, ela realizava tudo que era solicitado e ali, na adrenalina de colocar em pé um dos maiores eventos do país, ela se encantou. "Quando você vê um Grande Prêmio acontecendo é uma realização tão grande. E você pensa 'uau, fiz parte disso' e é assim que fui fisgada."

No ano seguinte, ela aceitou novamente trabalhar na organização do evento e, com isso, a sua tão imaginada carreira na engenharia foi se distanciando. "Temos que ter sonhos e buscar realizá-los, mas também temos que ter a cabeça bem aberta para outras oportunidades. Eu poderia ter insistido em trabalhar com engenharia e no final, vim fazer um trabalho voluntário, gostei e fui encontrando desafios dentro desse próprio trabalho."

A mulher que comanda o GP Brasil de F1

Claudia tem a fala serena, seu tom de voz é bem calmo e o sorriso está sempre presente no rosto. Ela brinca dizendo que as pessoas pensam que a empresa – Internacional Publicity – trabalha somente às vésperas da corrida, mas não imaginam como organizar um dos maiores eventos do país é trabalhoso e leva tempo.

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"Quem defende a ideia de levar a Fórmula 1 para o Rio de Janeiro não tem noção da complexidade. Só quem vive aqui dentro é que tem ideia de como trabalhoso fazer um único evento no ano. São 10 mil pessoas envolvidas aqui no dia da corrida, temos fornecedores de anos que cuidam de diversas áreas, como montagem, comida, limpeza, manutenção e etc. E ainda vai ser preciso construir uma pista de corrida por lá", opinou sobre possível transferência do GP do Brasil para Deodoro, na capital carioca.

Manutenção sendo feita em Interlagos às vésperas do GP Brasil de F1 (Foto: Nelson Antoine / AP)

Dá pra ter uma noção da grandiosidade da etapa brasileira de Fórmula 1 com esses números: são necessários, por exemplo, oito jumbos fretados para o transporte dos equipamentos das equipes, 8 mil toneladas de estrutura metálica para a construção de arquibancadas, 800 voos de helicóptero por dia e mais de 30.000 flores.

O bônus para a cidade também existe. A etapa do ano passado gerou um impacto com turismo de R$ 334 milhões – 19,2% superior ao da prova de 2017 –, segundo dados do Observatório de Turismo e Eventos da Cidade de São Paulo.

A privatização do autódromo de Interlagos em 7 perguntas

Para coordenar toda essa operação, Tamas – promotor do evento -, escolheu Claudia. Ela começou coordenando as áreas de camarote para patrocinadores e, há dez anos, assumiu de vez a direção do evento. "A minha maior realização acontece quando vejo que ele foi bem sucedido, que as pessoas vieram, se divertiram  e tiveram um dia interessante", revela.

(Foto: Nelson Antoine/AP)

O  Autódromo de Interlagos é montado para receber a corrida em parceria com a Prefeitura e, diferente do que acontece em outros países – onde eles ficam com sua estrutura fixa o ano todo – o espaço da corrida brasileira ainda recebe outros eventos durante o ano, como o Festiva Lollapalooza.

"Aqui no espaço, a gente divide a Fórmula 1 com outros eventos, fora do Brasil também é assim, mas lá a estrutura é fixa. As arquibancadas, por exemplo, ficam sempre montadas. Aqui não, se põe e se tira todos os anos", explicou.

Barreiras e conquistas

Nessa trajetória, dividindo espaço com homens e atuando na organização de um esporte predominantemente masculino, Claudia revela não ter sofrido nenhum preconceito, mas percebe que muitas mulheres ainda não ocupam certos cargos por acharem que aqueles espaços não as pertencem.

"Cada vez você vê um número maior de engenheiras na Fórmula 1, o cenário vem mudando, mas diria que a área dos boxes ainda é mais masculina. Até na área de engenharia eu vejo uma barreira colocada por nós mesmas, pensando que mulher não tem jeito pra exatas. Eu não acho que é uma questão de capacidade, mas algo que nos foi incorporado há tempos. Tem até grupos hoje em dia que trabalham para mostrar para as meninas que elas mesmas não tenham esse próprio preconceito", ressaltou.

Certa vez, Claudia recebeu uma homenagem na Câmara dos Vereadores de São Paulo e ali havia um grupo de meninas acompanhando a solenidade. Elas faziam parte de um curso técnico chamado "Escola de Mecânica", que acontecia dentro de Interlagos. "No final do evento uma menina me disse que queria fazer engenharia porque ela tinha lido em uma reportagem que eu também tinha feito. Ela devia ter uns 14 anos e me fez muito contente. Eu nem imaginava que pudesse inspirar alguém assim", contou.

(Foto: Osvaldo Luiz Palermo/GP Brasil de F1)

Casada com o promotor do GP Brasil há nove anos, ela nunca enfrentou desconfiança das pessoas ao seu redor por ter assumido o posto de CEO por ser esposa de Tamas. "Olha, até acho que quem me conhece agora pode ter essa ideia, mas dentro da organização, não. Todo mundo viu como tudo aconteceu aqui e, quando eu cheguei ao cargo de CEO, eu ainda não era esposa dele", reforça.

Em 2013, sob sua gestão, a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) elegeu o GP Brasil de F1 como o mais bem organizado da temporada – feito que o Brasil só havia alcançado em 2006, que também contou com a participação de Claudia. Em Paris, a diretora recebeu o prêmio das mãos de Bernie Ecclestone (então dono dos direitos comerciais da Fórmula 1), coroando um ano de trabalho que, segundo ela, foi impecável.

"Foi uma honra, foi pra coroar tudo que trabalhei por uma vida. E receber isso do Bernie, que é quem construiu a Fórmula 1, e ouvir ele reconhecer que o trabalho foi fantástico e fenomenal, é muito bom", ressaltou.

Referência feminina

Na International Publicity, cerca de 60% do quadro de funcionários da empresa é representado por mulheres e Claudia se considera uma gestora que tem "as portas abertas para receber os funcionários para qualquer tipo de consulta".

"Meu jeito calmo normalmente é assim, não quer dizer que eu seja uma pessoa calma, mas é o que eu transmito para os outros. Sou preocupada e ansiosa como qualquer ser humano. Tenho dificuldade pra dormir, anoto coisas no papel, se começa a chover demais eu já acordo pensando 'será que vai chegar alguma notícia de Interlagos?' Mas nunca perdi as estribeiras, sempre procuro passar a calma pra todos", revelou

Para a CEO, o grande desafio de sua carreira deve acontecer quando precisar trilhar outros caminhos. E, para este momento, ela deseja compartilhar com outras pessoas toda a expertise de adquiriu no único emprego que teve na vida.

"O Tamas uma vez me perguntou onde eu queria chegar. Eu respondi que não sabia, mas queria saber até onde eu poderia ir. Me sinto profissionalmente realizada. Acho que como pessoa, ainda tenho que saber como posso usar tudo isso e dividir com outras pessoas sobre onde eu cheguei. Esse é meu principal objetivo na próxima fase. Como o que eu adquiri aqui dentro, quantas pessoas eu consegui formar e como posso continuar fazendo isso, não só aqui."

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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