Topo
Dibradoras

Dibradoras

‘A conquista é ter voz’: bailarina lutou por sapatilha da cor de sua pele

Roberta Nina

06/11/2019 04h00

(Foto: @vague_pics)

A bailarina brasileira Ingrid Silva precisou sair de seu país de origem para encontrar pertencimento e se sentir acolhida dentro de uma companhia de dança. Carioca do bairro de Benfica (zona central do Rio), Ingrid é hoje um dos nomes mais representativos do balé clássico e há 10 anos faz parte da companhia Dance Theater of Harlem, de Nova Iorque. 

"Foi chegando no Dance Theater of Harlem que eu me dei conta que a companhia tinha mais diversidade do que no país de onde eu vinha. Eu nunca sofri nenhum preconceito verbal morando no Brasil, mas através de olhares a gente sabe. A dança (balé) é muito elitista e não tem tantos bailarinos negros. Mas quando eu cheguei aqui, eu me senti acolhida e aí que eu percebi a diferença: por que no meu país não tinha diversidade nas salas e aqui tinha mais?", contou Ingrid às dibradoras.

A companhia de dança norte-americana foi fundada em 1969 por Arthur Mitchell, o primeiro bailarino negro do New York City Ballet. A proposta do DTH é ser multirracial e que defende, acima de tudo, a inclusão. Entre seus integrantes, há bailarinos do mundo todo. 

E quando passou a dançar pelo DTH em 2008, Ingrid precisou seguir um padrão de vestuário para se apresentar nos palcos. A técnica – criada pelo próprio Arthur Mitchell – consiste em fazer com que as bailarinas vistam roupas que imitem e, acima de tudo respeitem, a linha contínua de seus corpos. Por conta disso, Ingrid não deveria vestir meia-calça e sapatilhas cor-de-rosa, mas sim usar meias e sapatilhas que seguissem a cor de sua pele.

"Eu só segui esse padrão da cor da sapatilha e da meia da cor da pele quando eu vim pro Dance Theater of Harlem. O Arthur criou esse look pra companhia, fazendo a meia e a sapatilha combinarem com a cor de nossa pele. Quando eu morava no Brasil, nem sabia que isso existia. Então, isso nunca foi o problema. O ponto era ter uma uniformização do corpo", explicou Ingrid. 

E como fazer para encontrar sapatilhas com outra cor, a não ser o rosa clássico ou o branco?

Pelas redes sociais, Ingrid Silva comemorou a chegada de suas novas sapatilhas, que agora sim obedecem o tom de sua pele e a possibilitam dançar sem precisar usar manualmente uma base de maquiagem líquida para transformar seu instrumento de trabalho mais importante em algo real.

"Pelos últimos 11 anos, eu sempre pintei a minha sapatilha. E finalmente não vou ter mais que fazer isso! FINALMENTE! É uma sensação de dever cumprido, de revolução feita, viva a diversidade no mundo da dança. E que avanço, viu? Demorou mas chegou!"

Do esporte ao balé

Filha de uma empregada doméstica e de um funcionário aposentado da Força Aérea Brasileira, Ingrid descobriu o balé aos 8 anos, quando participou de uma audição na Vila Olímpica da Mangueira para tentar uma vaga no "Dançando Para Não Dançar", projeto social que leva aulas de balé há mais de dez anos para comunidades carentes do Rio de Janeiro.

"Desde pequena, perto de três anos, sempre fiz natação, competia, ganhava medalhas. Então, esse meu lado no esporte sempre foi muito forte. Também fiz ginástica e futebol. Gosto muito de futebol, não torço para nenhum time, mas acho que é muito importante ter mulheres no esporte e ocupando esses espaços onde só é visto por homens", revelou.

Depois de passar no teste do projeto social, ela começou a dançar e nunca mais parou. Aos 12 anos fez parte da Escola de Dança Maria Olenewa  do Theatro Municipal e percebeu que nas principais companhias praticamente só havia bailarinos brancos. Ainda assim, ela resistiu.

Passou também pela escola de Deborah Colker, estagiou no Grupo Corpo, em Belo Horizonte e entrou para o Dance Theater of Harlem ao produzir um vídeo para uma audição que dava ao vencedor o direito de fazer curso de férias na companhia. Entre as mais de 200 participantes, Ingrid foi uma das escolhidas e passou um mês em Nova Iorque. Logo depois, ela foi convidada, aos 19 anos, para se tornar bailarina da companhia e é lá que vive desde então.

Ver essa foto no Instagram

 

Life is really UPsideDown! ✨ 📸 @vandyphotography 💃🏾 @empiretiaras

Uma publicação compartilhada por Ingrid Silva (@ingridsilva) em

Bailarina ativista

Ingrid declarou que não via como um problema  pintar suas sapatilhas a cada apresentação, mas de fato, era necessário mudar alguns conceitos.

"Eu só segui um padrão (para dançar), mas eu venho falando sobre isso por meio do meu ativismo há anos e várias outras bailarinas também. Eu entrei em contato com a marca (das sapatilhas), a gente vem conversando há dois anos, mas em fevereiro deste ano foi firmado que eles procurariam a seda da cor da minha pele. Então, foi customizada especialmente pra mim através da marca", contou.

Ingrid comanda também uma plataforma colaborativa chamada EmpowHer New York que foi criada para dar voz às mulheres reais e suas questões. No perfil, ela mostram a rotina de diferentes personagens inspiradoras, sempre com o intuito de conectar e ajudar pessoas.

"Acho muito importante chegar em um patamar como este e usar essa plataforma para falar de temas que as pessoas não entendem ou que nunca perceberam na vida. Essa é a minha maneira de usar meus ativismo em prol de outras pessoas e dar oportunidades para que elas possam falar de diversos assuntos", disse.

Do surgimento nas cortes italianas no século 16, passando revolução das mulheres no século 18 que mudaram o figurino da dança (que limitavam seus movimentos) e pelo movimento de dançar na ponta dos pés iniciado por Marie Taglioni, podemos dizer que a brasileira Ingrid Silva também é responsável por uma revolução no balé clássico. 

Principalmente se analisarmos o contexto de onde saiu e de tudo que conseguiu alcançar. "Minha maior conquista foi ser quem eu sou. Uma história rara de uma menina que saiu de uma comunidade e conseguiu chegar onde eu cheguei e com a voz que eu tenho que é muito forte globalmente. Ter e dar voz aos futuros bailarinos negros que estão aí hoje em dia é minha maior conquista", revelou.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

Dibradoras