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Raí e Leco aprovaram Morumbi para final feminina, mas acordo com TV barrou

Renata Mendonça

13/08/2019 09h04

Foto: Divulgação São Paulo FC

O São Paulo se classificou para a final da série A2 do Campeonato Brasileiro feminino no fim de semana, e a ideia da comissão técnica da equipe era a de finalmente levar as mulheres para jogar no Morumbi, o estádio oficial do clube. Tinha tudo para dar certo, mas o acordo da Band com a CBF para a transmissão de jogos do torneio nacional acabou impossibilitando o jogo lá.

Pode parecer algo muito simples e óbvio que um time mande uma decisão de campeonato no seu estádio. Mas para equipes femininas, não é simples assim. Porque em geral, os estádios dos clubes de camisa são muito grandes e muito caros para serem utilizados – além de terem toda a prioridade da equipe masculina principal, claro -, então ter aprovação para se mandar um jogo das mulheres em um estádio como o Morumbi não é fácil.

"Dentro da viabilidade que temos agora, a solução que encontramos foi mandar os jogos em Cotia. Infelizmente, a modalidade ainda não é auto-suficiente para abrir o estádio, fazer a estrutura do jogo lá ainda é um um custo alto e ele começa a ficar cada vez mais negativo", explicou o supervisor do futebol feminino do clube, Amauri Nascimento, ainda no início do ano, na apresentação de Cristiane.

A "casa" do time feminino do São Paulo neste ano começou sendo o estádio de Cotia, onde fica o Centro de Treinamento da base são-paulina. Só que o local não tem laudo de estádio e, por isso, para os jogos da segunda fase do Campeonato Paulista e do Brasileiro, o clube precisou encontrar outra alternativa. O Pacaembu se mostrou aberto a receber os jogos do futebol feminino dos clubes sem cobrar aluguel e isso facilitou para que, internamente, o São Paulo conseguisse aprovação para mandar os jogos das mulheres lá.

O clube levou três jogos para o estádio municipal e conseguiu ter um retorno interessante do público. Começou ainda tímido com um clássico contra o Palmeiras pelo Paulista, depois teve maior participação dos torcedores nas quartas-de-final do Brasileiro diante do Taubaté, e terminou com um público excelente, apoiando as jogadoras o tempo todo em mais um clássico Choque-Rainha pela semifinal do torneio nacional.

Torcida no Choque-Rainha no Pacaembu (Foto: Rubens Chiri / SPFC)

Os jogos das mulheres no Pacaembu estavam funcionando, mas o São Paulo queria dar um passo além para esta final de Brasileiro. Diante do Cruzeiro, ainda com o apelo de um jogo que vale a disputa pelo título, a ideia era finalmente levá-las para jogar no Morumbi.

Em reunião com o diretor de futebol, Raí, e com o presidente Leco, a comissão técnica do São Paulo feminino conseguiu a aprovação dos dois para que o jogo fosse feito no estádio do clube. Como o time masculino joga no Morumbi no domingo às 17h, a ideia era fazer o jogo do feminino no sábado.

O plano foi levado para a CBF com o pedido de mando de jogo da final para o dia 17 de agosto de manhã, mas foi vetado. Isso porque a entidade tem um acordo com a Band para a transmissão de um jogo por semana do Brasileiro feminino (séries A1 e A2), sempre aos domingos às 14h. A partida escolhida pela emissora nesta semana foi justamente a final da A2, e por isso São Paulo e Cruzeiro só poderiam se enfrentar mesmo no domingo, 18 de agosto, às 14h – dessa forma, o mando será no Pacaembu.

Nesse horário, seria impossível realizar o jogo no Morumbi, por conta da partida entre São Paulo e Ceará pelo Brasileiro masculino. Por conta de todos os protocolos exigidos pela CBF no torneio (aquecimento no gramado, e liberação do campo para jogo com pelo menos uma hora de antecedência), e também pela limitação do número de vestiários (não haveria tempo hábil para as equipes femininas liberarem os vestiários para as equipes masculinas), não daria para realizar a partida delas às 14h, com a deles começando duas horas depois (ambos com transmissão de TV). A situação complica ainda mais por conta da torcida, que terá de decidir qual time apoiar, já que não daria tempo de ir à final das mulheres no Pacaembu e depois no jogo masculino (com prováveis estreias de Dani Alves e Juanfran) no Morumbi.

Foto: São Paulo FC

É claro que é muito positivo e importante ter transmissão de uma final de campeonato feminino na televisão. É só com visibilidade que será possível tornar o futebol das mulheres um produto mais conhecido, mais visto e, consequentemente, mais vendido. A audiência que a Band tem tido com os jogos aos domingos às 14h mostra o potencial desse negócio – os números equivalem aos do Master Chef, programa que é carro-chefe da emissora.

Ao mesmo tempo, também é triste saber que as jogadoras do São Paulo não terão a chance de jogar no lendário estádio do clube porque não foi possível viabilizar uma troca de horário e dia da final. Em Minas, está acontecendo um problema parecido – o Cruzeiro também queria mandar o jogo de volta no Mineirão ou no Independência, mas este último já tem jogo do masculino marcado para acontecer às 11h de domingo (25/08) e o primeiro tem um evento programado chamado Corrida do Galo no mesmo dia. E também não será possível alterar nem a data, nem o horário do jogo por conta da transmissão da TV. Sendo assim, é bem provável que reste ao clube manter o mesmo local de jogo que tem sido utilizado ao longo do ano: o Sesc Venda Nova, com capacidade para apenas 3 mil pessoas.

Tudo isso faz a gente pensar: será que se a prioridade de todos fosse fazer o que é melhor para o futebol feminino não haveria um pouco mais de maleabilidade no horário desses jogos? Será que não seria possível achar outro espaço na grade da TV num sábado de manhã para mostrar o jogo acontecendo nos estádios dos dois clubes envolvidos, Morumbi e Mineirão?

De todas as formas, a certeza que fica é que serão dois jogos do mais alto nível, e que estamos evoluindo. Os clubes aos poucos vão entendendo a importância de oferecer estrutura e investir no futebol feminino. E quem sabe no ano que vem as TVs também se interessem por ceder mais de um horário na grade para transmitir tantos jogos bons que o futebol das mulheres têm proporcionado.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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