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Andressinha vai bem, mas Brasil ainda sofre defensivamente sem Formiga

Renata Mendonça

2018-06-20T19:19:35

18/06/2019 19h35

Foto: Reuters

A seleção brasileira entrou em campo diante da Itália com o maior desfalque já teve nos últimos 24 anos. A meio-campista Formiga, que está em sua sétima Copa do Mundo e veste a camisa amarela desde os 17 anos de idade tomou o segundo amarelo contra a Austrália e não pode entrar em campo nesta terça-feira, na partida que definiria os rumos da seleção neste Mundial.

Sem ela, Vadão optou por escalar Andressinha no meio-campo ao lado de Thaísa e Marta, e colocou Ludmila para substituir Andressa Alves que acabou lesionada no último treino. E logo no primeiro tempo já deu para sentir o tamanho do peso da ausência de uma jogadora tão polivalente quanto Formiga. Aos 41 anos de idade, é ela que consegue dar o ritmo do meio-campo do Brasil, que protege a defesa e, ao mesmo tempo, consegue sair jogando com muita qualidade para apoiar o ataque. Sem ela, a seleção ficou praticamente sem meio-campo. Com buracos enormes entre as linhas e muita dificuldade para fazer qualquer transição entre defesa e ataque – não à toa, as melhores jogadas do ataque nos primeiros 45 minutos vieram de cobranças de escanteio.

O problema começa com a falta de opção que o Brasil tem no banco para o setor coberto por Formiga. Na convocação, Vadão chamou apenas quatro jogadoras que exercem efetivamente a função de meio-campistas – Formiga e Thaisa, que são titulares, e Andressinha e Luana, reservas. Só que as duas suplentes têm características muito mais ofensivas do que defensivas, e isso complica demais na hora de substituir uma jogadora como Formiga, que é incansável na marcação e nas roubadas de bola.

A própria Thaísa, que é volante normalmente, tem jogado mais avançada, como fez contra a Austrália. No jogo contra as italianas, o que se via em campo era uma defesa desprotegida, e um buraco enorme que isolava as quatro atacantes lá na frente – Marta, Cristiane, Debinha e Ludmila.

Foto: CBF

"A Formiga tem uma leitura de jogo que poucas atletas no mundo conseguem ter. Sabe o momento de avançar, de afastar, de acalmar. Ela vai fazer falta. Mas estamos confiantes com relação a isso", havia dito Vadão na coletiva de imprensa que antecedeu o jogo. Só que o que se viu em campo foi muita desorganização da seleção brasileira tanto no ataque, quanto na defesa. O que havia saído muito certo no jogo contra as australianas, que era a estratégia de contra-ataque, dando o bote na bola delas justamente no meio-campo, não aconteceu desta vez, porque o Brasil não acertou a marcação, nem o preenchimento dos espaços das italianas, que apareceram por algumas vezes na cara do gol de Bárbara – Bonansea teve uma chance impressionante, que a goleira fez uma defesaça para impedir que ela abrisse o placar.

A esperança acabou sendo Andressinha nas bolas paradas, que são sua especialidade. No segundo tempo, em uma cobrança de falta ela acertou o travessão, e na outra deixou Kathellen na pinta para marcar – mas a cabeçada foi para fora.

De resto, por muitas vezes Cristiane e Marta passaram a buscar a bola no meio-campo, e a seleção voltou a forçar seus passes longos característicos do time de Vadão, e que raramente terminam no destino certo.

AFP

Os maiores apuros do Brasil se passaram pelo lado direito da defesa, onde Letícia foi muito mal na partida. As bolas passavam seco por ela e acabavam sobrando para Kathellen tirar já na berlinda. A lateral também foi mal no ataque, errando muitos passes e cruzamentos.

Mas não dá para negar que o time melhorou na etapa final – até pela queda de rendimento das italianas -, conseguiu segurar melhor as adversárias e criar mais jogadas no ataque. Andressinha e Debinha foram os destaques, responsáveis pelas principais chances brasileiras. Mas a solução veio mesmo de uma bola parada. Sem conseguir construir tantas jogadas coletivamente – e dependendo do talento individual para assustar a Itália -, o Brasil contou com a habilidade de Debinha para invadir a área, deixando as marcadoras para trás. A zagueira Linari derrubou a brasileira, e a juíza apitou o pênalti. Marta cobrou com maestria para fazer seu 17º gol em Copas do Mundo, ultrapassando o alemão Miroslav Klose e reinando absoluta como maior artilheira da história dos Mundiais, entre homens e mulheres.

 

Diante desse resultado, a seleção conseguiu a classificação em terceiro lugar, porque a Austrália somou mais gols pró e ficou com a segunda colocação. A Itália, surpresa do grupo, avançou em primeiro. E a certeza é que Vadão ainda tem muitos problemas para resolver no time. Pelo menos ao que parece, Formiga estará de volta para as oitavas. Aí é torcer para que ela não desfalque mais, porque a contar pelo número de lesões que as principais jogadoras do time têm sofrido, a maré do técnico não é de muita sorte.

Foto: Reuters

"Hoje a gente comentou sobre o meio-campo no intervalo, erramos muito passe, não estava compactado. Fizemos um segundo tempo bem melhor, mais regular. Acho que nós temos que sempre mesclar jogadoras experientes, mas esperamos que a Formiga esteja apta porque ela com certeza dá uma estabilidade pras jogadoras mais jovens", pontuou o treinador depois do jogo.

Sem Andressa Alves e com Ludmila, o Brasil não encaixou. Talvez com a volta de Formiga, a articulação do meio-campo melhore. Mas ainda será preciso achar uma solução para preencher os espaços deixados na marcação e também para encaixar melhor o ataque sem a camisa 7 lá na frente.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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