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São-Paulinas e Corintianas criam grupos para acolher mulheres no estádio

Renata Mendonça

2013-04-20T19:10:33

13/04/2019 10h33

Foto: Guilherme Drovas / Divulgação São Pra Elas

A arquibancada sempre foi lugar de mulher – não à toa a origem do termo "torcedoras" vem justamente delas, que lá nos tempos mais primórdios do futebol ficavam torcendo seus lencinhos de nervoso no estádio vendo o jogo. Mas nem sempre foi um lugar confortável para elas. E muitas mulheres já deixaram de ir para jogos justamente por esse medo de assédio, de violência, de agressão – experiências que são frequentes, infelizmente, para elas no ambiente do estádio.

Foi pensando nisso que torcedoras de São Paulo, Corinthians, Santos e Palmeiras criaram grupos para acolher mulheres na arquibancada. Aproveitando o momento da final do Campeonato Paulista neste domingo, vamos contar a história de dois deles aqui: o São Pra Elas, e o Movimento Alvinegras.

Experiência

Ir ao estádio para ver um jogo de futebol deveria ser uma escolha simples de "querer ou não querer" ir. Mas para as mulheres essa decisão não é fácil e envolve muito mais do que apenas vontade: são os medos de todos os dias (do assédio, do abuso, da violência) potencializados em um lugar que a sociedade não cansa de dizer: não é para ela.

E é fato que, para as mulheres, também é um pouco mais difícil ter companhia para ir ao estádio. É uma questão lógica: desde cedo, a gente aprende que "futebol é coisa para menino", então pela falta de incentivo (e pela exclusão), boa parte das meninas não se envolve nesse mundo; consequentemente, haverá um número menor de mulheres ali; e sendo assim, nem sempre você terá amigas próximas que gostem de futebol para ir ao estádio com você; os homens, que também já partem do pressuposto que você não gosta/não está interessada nisso, também não vão te chamar. Resultado? Você passa uma vida toda sem viver a experiência do futebol por completo, sem sentir a vibração da arquibancada e ouvir de perto o grito da torcida.

Foto: Guilherme Drovas / Divulgação Movimento Alvinegras

Por tudo isso, essas torcedoras de Corinthians e São Paulo decidiram reunir mulheres para levá-las para o jogo juntas, de uma maneira que pudessem se sentir mais seguras e confortáveis. A ideia é uma apoiar a outra, desde o caminho para o estádio, até a experiência na arquibancada e também a volta para casa.

O mecanismo dos dois movimentos é o mesmo: elas criaram grupos no whatsapp e nas redes sociais, separaram as torcedoras por zona onde mora na cidade (ou às vezes até para além das fronteiras de São Paulo) e ali combinam local de encontro para ir ao estádio, local de encontro no jogo e monitoram como cada uma chegou em casa depois. Tanto as corintianas quanto as são-paulinas conseguiram mobilizar centenas de torcedoras, sendo muitas delas que nunca tinham vivido a experiência de ir a um jogo de futebol por medo e agora encontraram a força que precisavam com as mulheres ao seu redor.

Movimento São Pra Elas

Em novembro de 2017, o São Pra Elas surgiu, na verdade, como "São-Paulinas Uniformizadas". Isso porque era um desejo compartilhado das torcedoras comprar camisas e uniformes do São Paulo em tamanhos femininos, mas na maioria das vezes as lojas não tinham modelos assim para elas. "Usa o infantil, serve", era o que sempre ouviam.

Por isso, as torcedoras criaram um movimento nas redes sociais e a voz delas foi tão ecoada que chegou até o próprio São Paulo. Houve resposta, houve melhora nesse aspecto, e aí elas perceberam que poderiam transformar o movimento numa oportunidade para reunir mais mulheres no estádio. Nascia ali o São Pra Elas.

"Hoje a gente tem 2 grupos o whatsapp, um com lotação máxima, 275 meninas, o outro com 200. A gente também criou os grupos por região da cidade para ficar mais fácil o contato das torcedoras umas com as outras. E no jogo, a gente tem nosso ponto de encontro. Sempre conseguimos reunir umas 60, 70 meninas na arquibancada", contou às dibradoras Raiane, uma das criadoras do movimento.

Foto: Divulgação São Pra Elas

O movimento fez com que elas aprendessem muito umas com as outras. E deixassem de lado algo que dizem sempre ter atrapalhado a aproximação das torcedoras no estádio: uma rivalidade criada entre elas próprias, muitas vezes por fazerem parte de Organizadas diferentes.

"O que mais a gente aprendeu foi que a gente precisa ter empatia umas com as outras, a gente não sabe a realidade que a outra vive. Existe muita rivalidade feminina dentro de torcida e quando a gente criou esse movimento a gente percebeu que era mais do que a gente imaginava. A gente aprendeu que a gente está ali pelo mesmo ideal, temos que nos unir e nos proteger. Unidas a gente é bem mais forte do que lutando sozinha", afirmou Raiane. Hoje, o que guia o São Pra Elas é justamente essa união e a sensação de que não estão sozinhas.

 

"A importância desses movimentos é para a gente se sentir confortável, segura, que ali é nosso lugar, sabendo que a gente tem pra quem dar a mão quando precisar. E mostrar que nós estamos ali pelo mesmo motivo que os homens. Conseguimos olhar umas pras outras como se fosse uma família mesmo."

Para a final de domingo, que será no Morumbi, elas já se mobilizaram em grupos de todas as regiões de São Paulo para poderem ir ao estádio tranquilas e torcer sem medo. "Nosso principal objetivo é não deixar ninguém sozinha. Estamos juntas, sempre", finalizou Raiane.

Movimento Alvinegras

Elas são corintianas, mas não escondem que a inspiração para o movimento veio das rivais palmeirenses, que criaram um grupo exatamente com esse intuito chamado Verdonnas. Isso aconteceu no segundo semestre do ano passado, quando houve uma briga no metrô em que uma torcedora palmeirense acabou acuada por torcedores do Corinthians – o episódio foi triste, mas fez surgir dos dois lados movimentos muito interessantes justamente para acolher mulheres no futebol e acabar com o medo que elas sentem de ir a um jogo sozinhas.

"Hoje tem 3 mil meninas no grupo que mantemos no Facebook. Somos divididas em 13 grupos de whatsapp, as meninas marcam encontro entre elas e juntas vão para o estádio, ficam mais seguras, mais confortáveis. E o legal é que criam amizades também", relatou Tatiane, que está no movimento desde o início.

Foto: Divulgação Movimento Alvinegras

"Com o movimento, descobrimos que muitas meninas nunca tinham ido, tinham medo, foram assediadas, tiveram direito de ir e vir prejudicados. E isso nos fez aprender a questão da sororidade, se colocar no lugar da outra e apoiar mulheres. As meninas criaram um vínculo de amizade muito bonito. Temos aprendido muito sobre isso como criar vínculos na arquibancada é legal e é importante."

Agora, não é nem só para jogos na Arena Corinthians que elas se reúnem. As torcedoras tomaram tanto gosto pelo grupo, pela oportunidade de terem companhia para torcer juntas com outras mulheres, que acabaram fazendo também eventos para verem os jogos fora de casa.

"Quando as meninas querem muito assistir e são fora do jogo, a gente marca ponto de encontro em bares, em casas. Sempre damos um jeito", contou Tati. 

A única coisa chata é que, para jogos grandes como decisões em clássico, elas precisam ter um cuidado maior. E as mais experientes sempre dão as dicas nos grupos de whatsapp sobre os lugares que precisam ter mais cuidados ou até mesmo que precisam ser evitados.

De qualquer forma, a lição tanto para corintianas, quanto para são-paulinas não poderia ser outra: juntas, elas são mais fortes. E vão ocupando a arquibancada cada vez mais.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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