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Gre-Nal: uma rivalidade que pega fogo agora também no futebol feminino

Roberta Nina

2021-02-20T19:10:42

21/02/2019 10h42

(Foto: Lucas Uebel/GREMIO FBPA)

O Gre-Nal, uma das rivalidades mais fortes do futebol brasileiro, tem mais de 100 anos e 417 confrontos realizados entre as duas equipes gaúchas. O Internacional leva vantagem nos duelos, registrando 156 vitórias coloradas contra 130 vitórias tricolores.

E é claro que, quando se pensa neste duelo, é o futebol dos homens que vêm à cabeça e são deles os números divulgados acima. Porém, com a imposição da Conmebol, que obriga clubes masculinos a manterem times profissionais e de base entre as mulheres para poderem disputar competições como a Libertadores e a Copa Sul-Americana, a rivalidade feminina entre as duas equipes está começando a nascer no Brasil.

As "gurias" do Internacional e do Grêmio já se enfrentam há três anos, dentro de campo pelos mesmos objetivos e também fora de campo, disputando jogadoras e profissionais para compor seu elenco.

Final do gauchão em 2018 (Foto: Lucas Uebel/GREMIO FBPA)

A reportagem do dibradoras falou com os responsáveis pelo futebol feminino de cada clube e trazemos aqui um pouco dessa história que está crescendo e promete apimentar ainda mais o Gre-Nal no Sul do país.

Gurias Gremistas 

O futebol feminino no Grêmio começou em 2017 com uma parceria entre Grêmio e Associação Gaúcha de Futebol Feminino (AGFF) e não foi muito bem. Com resultados nada satisfatórios, a equipe – que disputava a Série A1 – foi rebaixada para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. 

Grêmio em 2017, rebaixado para Série A2 (Foto: LUCAS UEBEL-GREMIO FBPA)

Não foi fácil se reinventar em 2018, mas o tricolor gaúcho conseguiu. Primeiro, o clube assumiu toda a gestão do futebol feminino e passou a profissionalizar parte de seu elenco. "Demos um passo bacana. Saímos de uma condição de equipe amadora para profissional. Hoje elas tem tudo: um departamento só para o feminino, estrutura para treinamentos, alojamento, campo próprio, tudo custeado pelo clube", afirmou Yura, ex-jogador do Grêmio na década de 70 e atual diretor de futebol feminino.

Yura, diretor de futebol feminino no Grêmio (Foto: Jéssica Maldonado / Grêmio FBPA)

Jogando o Brasileirão A2, sofreu uma goleada de 5×1 do rival colorado no mês de maio e não conseguiu o acesso para a elite do nacional, mas acabou o ano passado de maneira gloriosa com a conquista do Gauchão Feminino e em cima de seu maior adversário.

Com dois jogos equilibradíssimos – dignos de Gre-Nal – as equipes empataram nas duas partidas: 0x0 na ida, em Gravataí (onde o Grêmio manda seus jogos) e 1×1 na volta, no Beira Rio. Na decisão por pênaltis, a vitória gremista lavou a alma das jogadoras com direito à provação. "Um minuto de silêncio para o Inter que está morto", cantavam elas.

Grêmio, campeão gaúcho em cima do Inter (FOTO LUCAS UEBEL-GREMIO FBPA)

"Essa rivalidade faz bem e faz parte. Fizemos uma festa dentro do Beira-Rio e o pessoal de lá, para nos dispensar, começou a ligar os jatos de irrigação do gramado para molhar as meninas. A torcida foi embora, mas a gente comemorou bastante", relembrou Yura. O clube também promoveu uma festa para comemorar o título feminino na Arena do Grêmio.

Sem um pódio para receber a premiação, a cena das gremistas levantando o troféu em cima de uma mesa de escritório improvisada ficou eternizada e pegou mal para a organização do campeonato.

Final do gauchão em 2018 (Foto: Lucas Uebel/GREMIO FBPA)

Para este ano, a meta é chegar à elite do Brasileirão e brigar pelo bicampeonato Gaúcho. "O presidente Romildo Bolzan me deu todo o respaldo para trabalhar. Pedi jogadoras e ele me atendeu. Ano passado, perdi cinco jogadoras para o Inter, esse ano contratei duas que eram deles mais a treinadora", contou. A técnica da equipe gremista nesta temporada será Patrícia Gusmão que era auxiliar na equipe colorada no ano passado.

Patrícia Gusmão, a nova treinadora do Grêmio (Foto: Jéssica Maldonado / Grêmio FBPA)

O Grêmio aloja as meninas em Gravataí (29km de Porto Alegre) e elas jogam no Estádio Vieirão. As atletas têm contrato desde o ano passado quando a metade do grupo foi profissionalizado, antecipando a exigência. Hoje, o elenco é todo profissional e algumas atletas têm com contrato de base, em função da idade. Elas também tem direito à seguro saúde e convênios com escolas e faculdades.

A base gremista fica em Porto Alegre, no CT do Cristal, onde funciona a escolinha para as garotas do sub-11, sub-13, sub-15 e sub-17. Peneiras serão realizadas para garotas de 14 a 18 anos com o objetivo de formar a equipe sub-18 que disputará o campeonato da categoria promovido pela CBF com 24 clubes, de julho a setembro.

(Foto: Jéssica Maldonado / Grêmio FBPA)

"Estamos fazendo tudo que o futebol feminino precisa. Não dá pra fazer loucura agora porque eu quero ir para a primeira divisão. E eu falo para elas que esse é o primeiro passo, daqui uns anos vai melhorar, vai crescer. E estar na elite é outro nível, facilita mais a busca por patrocínios", afirmou Yura que também disse à reportagem que o patrocinador master do Grêmio, a Banrisul, destina parte da verba oferecida ao clube para o futebol feminino.

Gurias Coloradas

A terceira temporada do Internacional no futebol feminino não alcançou o objetivo esperado. As coloradas ficaram muito perto de conseguir o acesso para a Série A1, mas foram derrotadas na semifinal pelo Vitória, da Bahia, por 2×1.

Reapresentação da equipe colorada para a temporada de 2019 (Foto: Ricardo Duarte)

O time também brigava pelo bicampeonato Gaúcho – título que conquistou em 2017, no segundo ano do projeto – mas viu mais uma conquista ser adiada, em casa, diante do maior rival, o Grêmio.

Com os resultados negativos, a técnica Tatiele Silveira acabou demitida do clube – e se transferiu para a Ferroviária – o Internacional buscou  Maurício Salgado (ex-Audax) para o cargo.

(Foto: Divulgação / Internacional)

Para 2019, o clube terá uma nova cara. O Inter buscou 17 reforços no total e algumas jogadoras subiram das categorias de base para o profissional. Entre as novidades, estão a volante Margi, norte-americana, que veio de São Francisco e a meia Malu, que defendeu as Sereias da Vila na última temporada e e tem passagens pela Seleção Brasileira de base. 

Duda, ex-jogadora do clube e atual gerente do futebol feminino, destacou em entrevista às dibradoras que o modelo de futebol feminino do Inter é um exemplo a ser seguido em todo o país. "Nós juntas vamos conseguir muitas coisas para o clube. É com esse sentimento que a gente inicia mais uma temporada."

Reapresentação das gurias coloradas (Foto: Reprodução Twitter/Gurias Coloradas)

As jogadoras contam com contrato profissional, contrato de formação (para a base), bolsa-auxílio, parceria com escolas e universidades e assistência médica. O clube mantém um alojamento para as jogadoras maiores de 18 anos.

Sobre a rivalidade no Gre-Nal, Duda também destaca a importância do clássico. "Só quem jogou um Gre-Nal sabe o que ele significa. É uma das maiores rivalidades do país. Quem já cobriu um Gre-Nal como imprensa também sabe do que estou falando. Aliás, sentimos falta da imprensa nessas horas", reforçou a dirigente cobrando mais apoio da mídia para o futebol feminino.

(Foto: Mariana Capra)

O Internacional também jogará o campeonato sub-18 e brigará pelo nacional e pelo estadual na mesma intensidade do rival e esses encontros prometem agitar a modalidade durante toda a temporada.

"Esse ano é a nossa fase de maturação e confirmação. O Internacional tem que entrar com muita força, muita garra e muita dedicação", afirmou Norberto Guimarães, VP de Relacionamento Social, durante a apresentação da equipe feminina.

A CBF ainda não enviou aos clubes as informações sobre o novo formato do A2 do Brasileirão que está previsto para começar dia 17 de março. Por conta da obrigatoriedade, a Série A2 terá 36 equipes participantes, solução adotada para abrigar os novos clubes que criaram o futebol feminino.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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