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A 1ª menina a passar em peneira de categorias de base de um time masculino

Renata Mendonça

29/01/2019 04h00

Foto: André Palma Ribeiro / Avaí

*Por Karla Torralba e Renata Mendonça

Quem é craque de bola desde a infância já costuma ir cedo para as categorias de base de um clube de futebol com o intuito de se preparar para o dia em que poderá virar profissional. É a base que forma o jogador e que, antes disso, o transforma em jogador. Só que quando a craque é uma menina, a história é um pouco diferente.

Para uma garota, jogar bola por si só já é desafiar a lógica. Se ela conseguir autorização dos meninos para brincar com eles na escola, já é uma vitória. Mas aí se quiser levar isso mais a sério, disputar campeonatos, o desafio é ainda maior – é preciso encontrar escolinha (e torneios) que aceitem meninas. Para uma menina entrar num clube quando ainda é criança, então, é basicamente impossível. Afinal, não existem clubes de futebol (praticamente) para meninas de 8, 9 ou 10 anos. As categorias de base feminina já são raras, mas quando existem são para jovens que têm 14 anos ou mais.

Mas a pequena Natália Pereira, de 9 anos, quebrou todas essas barreiras de uma vez. Na última sexta-feira, ela foi anunciada como a primeira menina a passar em uma peneira de uma categoria de base masculina no país. A partir de 2019, Nati vai defender as cores do Avaí, seu time do coração, no sub-10.

"Ela é a prova de que tudo é possível. Se a gente fosse falar um tempo atrás de uma menina jogando na base de um time profissional masculino, isso era algo completamente impossível de acontecer. Hoje pode, porque a Nati chegou lá", disse às dibradoras a mãe Karyna Pereira, transbordando de orgulho da garota.

Natália começou a jogar bola com o irmão, que é dois anos mais velho que ela, e aí entrou para escolinha com os meninos, mas sempre na ideia de brincar. Só que aos sete anos de idade, a garota decidiu: queria competir. Aí o desafio ficou maior, porque para isso era preciso que os pais encontrassem um time que aceitasse meninas e, consequentemente, um campeonato que a deixasse participar.

"Ela tentou fazer a peneira do time que o irmão jogava, mas chegou lá de chuteira e tudo e não a deixaram fazer porque não era para menina. Aí meu marido fez um post nas redes sociais desabafando sobre a decepção dela e indicaram o ADIEE, time de um colégio, e o técnico a chamou para um teste lá. Ela acabou ficando, foi a primeira menina a disputar a Liga Metropolitana (eram 900 meninos e ela) e isso repercutiu na região", relatou a mãe.

Nati também joga pelo Centro Olímpico (Foto: Arquivo Pessoal)

No torneio dos garotos, Nati brigou pela artilharia até o fim e chamou a atenção dos pais das outras crianças. Inicialmente, eles achavam "bonitinho" aquela que chamavam de "menina do laço" na quadra. Mas quando viam o talento dela, logo gritavam para os filhos: "tem que marcar a menina!", conforme conta Karyna aos risos. Ela diz que hoje a maioria aceita sem relutar o fato de haver uma menina jogando entre os meninos, mas que já ouviu muito aqueles comentários críticos de gente que fala: "menina jogando bola? como assim". "Gente, 2019 né? Não dá mais para falar uma coisa dessas", responde a mãe, que é fanática por futebol também, mas torce para o time rival ao que a filha vai jogar.

"Eu fui até gerente de comunicação do Figueirense, sou alvinegra de coração, mas falei para o presidente do Avaí: vocês verão uma alvinegra vestindo azul e branco. Não tem como não torcer, a gente faz tudo por uma filha né?".

Foto: André Palma Ribeiro / Avaí

A peneira no Avaí

Não foi simples convencer os dirigentes do Avaí a permitirem que uma menina participasse da seleção de atletas para o sub-10 do clube. Mas os pais de Nati insistiram que a garota era boa, e eles acabaram deixando que ela ficasse ali por uma semana para ser avaliada.

Diogo Fernandes, coordenador da base do Avaí, ressaltou o mérito de Nati na avaliação e disse que não tem intenção de levantar uma bandeira com a menina.

"Ela é como se fosse menino. Não vamos desviar a importância. Isso vai chamar atenção do público externo, mas não para o interno. Não queremos tirar o principal valor dela".

 

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Se eu faço este gol meu pai infarta #apoioaofutebolfeminino

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"Embora tenha psicólogo, vamos tratá-la como qualquer outro atleta do clube respeitando os gêneros e orientação dada a essa categoria. O intuito é dar formação para ela como dos demais. O principal foco é o mérito dela. Eu tenho receio de isso virar exploração comercial, de marketing e não evidenciar a qualidade técnica dela".

O coordenador explicou que, após o pedido dos pais de Nati para que a menina fizesse o teste no clube, agendou a avaliação e orientou a comissão técnica para que Nati não fosse beneficiada.

Nati jogou campeonato com os meninos no ADIEE (Foto: Arquivo Pessoal)

"Disse à comissão para não ter benefício no teste por ela ser menina e ela comprovou. Apesar de ser apoiador do futebol feminino, a gente nunca mensurou que alguém pudesse jogar com os meninos, treinando e é uma situação normal. Ter a aprovação ao passar no mesmo teste foi inusitado. Ver a competência que a menina tem, isso me surpreendeu", disse.

Lucas Colturato, treinador do sub-10 do Avaí, e um dos responsáveis por avaliar Natália, afirmou que já conhecia o talento da garota de campeonatos de futsal onde a viu jogar. "A gente já tinha visto jogos dela. O que chamou bastante a atenção foi a personalidade dela, porque não é fácil uma menina estar jogando entre os meninos, e a parte técnica dela, o domínio, passe e a finalização. Geralmente os atletas dessa idade têm alguma noção do futebol, mas a parte técnica ainda precisa ser lapidada, e a gente percebeu que a parte técnica dela está muito avançada para a idade", afirmou.

Nati se juntará aos meninos em março, depois que o time retornar de competição. Ela jogará com 22 garotos nascidos em 2009. "O que a gente percebe é que os meninos abraçaram a ideia, eles não excluem, gostaram dessa novidade. Lógico que no início acharam diferente, estranharam ver uma menina ali. Mas o futebol é um meio em que você lida com muitas diferenças sociais, de raça, que te fazem ter de adaptar rapidamente. Pelo que eles demonstraram, estão abraçando essa nova situação", pontuou o técnico.

Apesar de agora se juntar ao time de sua idade, no teste a menina treinou até com meninos mais velhos. "Quando há um desenvolvimento satisfatório, aumentamos a dificuldade. Ela até treinou com meninos mais velhos. Ela é de 2009 e treinou com 2008. Não esteve no nível dos mais velhos, mas chegou próximo. No grau de dificuldade mais alto ela comprovou que tinha capacidade", explicou.

Foto: Arquivo Pessoal

Agora, a rotina de Natália ficará ainda mais intensa, com o colégio e os quatro dias de treino por semana no Avaí. Além disso, desde o ano passado, a garota também foi selecionada para jogar na base feminina do Centro Olímpico-SP tendo que viajar uma vez por mês para a capital paulista onde fica treinando por uma semana – algo que ela também fará neste ano.

A mãe de Nati conta que a menina ainda não tem muita noção da representatividade que já tem aos 9 anos de idade. Ela ficou feliz, chorou de alegria ao saber que tinha passado na peneira, mas ainda não tem ideia da conquista que isso representa para as próprias mulheres.

"Para ela é uma vitória pessoal, mas para nós é uma vitória pro futebol feminino. Quando a gente viu a Marta dando uma entrevista falando que a maior vitória dela é a luta pelo futebol feminino, a gente se emocionou. Fizemos a Natalia ver esse vídeo várias vezes. Mesma coisa com a Amandinha, do Leoas da Serra, melhor jogadora de futsal do mundo por 5 vezes. A gente fala: a Marta, a Amandinha, e as outras jogadoras estão no mundo inteiro lutando por vocês. Então vocês têm que fazer isso pelas outras gerações", finalizou Karyna.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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