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Pronta para última Copa, Cristiane vê momento único para futebol feminino

Renata Mendonça

18/01/2019 08h54

Foto: Dibradoras

Os passos são leves, o sorriso é evidente e os olhinhos ficam levemente fechados na hora de entrar no campo por conta do sol que já brilha forte no céu. São menos de 9h da manhã de uma quinta-feira, quando Cristiane chega ao gramado para mais um treino com a seleção brasileira de futebol feminino. Uma rotina que ela já vive há pelo menos 15 anos na equipe principal, mas que mudou da água para o vinho nos últimos anos.

Nos tempos em que Cristiane surgiu como uma grande promessa do ataque na seleção de 2004, aquela da histórica medalha de prata, aquele mesmo campo onde pisa hoje em Teresópolis era completamente inacessível para ela. Aliás, para ela não, para elas. Treinar ali era um "privilégio" da seleção masculina. A academia com os melhores aparelhos, os equipamentos da preparação física, a estrutura de fisiologia…tudo isso era exclusividade daquela que era chamada "seleção principal" – a feminina, ainda que teoricamente se encaixasse nessa categoria, não tinha direito de usar a mesma estrutura. Hoje, porém, a realidade é um pouco diferente.

"Tinham coisas bastante inacessíveis aqui, por isso que eu falo que essa geração de hoje tem que agradecer muito as coisas que estão acontecendo. Claro, a gente não vai se acomodar porque eu sou chata, se tiver que brigar, vou brigar, se estiver faltando eu vou falar que está faltando, porque não dá para se contentar com pouco. Mas hoje é a mesma estrutura do masculino, não tem mais a restrição que existia lá atrás", contou a atacante às dibradoras.

Ainda se recuperando da lesão que encurtou sua temporada em 2018, Cris ficou na academia com algumas das outras jogadoras que também estão voltando agora, e se prepara para viver aquela que, garante, será sua última Copa do Mundo – e a quarta de sua carreira. Mas, diante de tudo o que já viveu com a camisa da seleção brasileira, ela reconhece que esse é um momento diferenciado para o futebol feminino.

Foto: dibradoras

"Acho que a geração de hoje está conseguindo muita coisa que eu não consegui, porque foi muito difícil chegar nisso lá atrás", diz Cris. Ela já está calejada, afinal. Nesse tempo todo que está na seleção, conquistou duas medalhas de prata olímpicas e um vice-campeonato mundial, tudo isso quando o Brasil mal tinha campeonato nacional para o futebol feminino, e quando as jogadoras precisavam subir ao pódio com faixas fazendo apelo por apoio ao futebol feminino.

Hoje, esse apoio, de certa forma chegou. A CBF tem investido o que nunca investiu, os clubes masculinos estão criando suas equipes femininas (por força da regra da Conmebol, mas estão) e até mesmo a televisão deu a visibilidade que elas tanto precisavam – a Globo confirmou às dibradoras que irá transmitir todos os jogos da seleção na Copa do Mundo da França, algo que nunca havia acontecido em outros Mundiais.

"É muito gratificante, porque a gente sempre esperou por esse momento, acho que a gente tem que valorizar muito. Acho que a responsabilidade vai ser maior, porque a partir do momento que você passa num canal aberto, você tem muito mais pessoas acompanhando, então o peso nas costas vai ser maior. Por isso que tem que ter uma preparação muito boa, e é muito bacana ver que as pessoas estão acompanhando mais, tentam saber como é o trabalho."

Foto: dibradoras

Essa será a primeira Copa do Mundo com jogos da seleção transmitidos ao vivo e na íntegra pela maior emissora do país, mas será a última que o Brasil terá a chance de acompanhar esse trio que nos encantou no futebol feminino nos últimos 15, 20 anos. Cristiane, Marta e Formiga – a primeira está indo para o quarto Mundial, a segunda vai para o quinto, e a terceira vai ser recordista na sua sétima Copa disputada aos 41 anos de idade. É possível que nenhuma delas mais esteja na próxima, em 2023. Mas Cris acredita que é importante aproveitar esses últimos anos para passar a experiência que acumulou no futebol feminino para a nova geração.

"Acho que são as 3 que sobraram de uma geração longa de atletas. É bacana ter nossa experiência com as meninas, porque a gente meio que tem voz aqui dentro, são as pessoas que tentam falar bastante com a comissão, atletas, a gente cobra muito, porque a gente sabe que vai chegar lá e não vai ser fácil. É uma mescla essa seleção, da experiência com a juventude e acho que isso acaba dando certo", observou.

A ida para o São Paulo

Não é todo dia que se vê uma jogadora recusar uma proposta europeia para ficar no Brasil. Cristiane estava com o contrato oferecido pelo Barcelona em cima da mesa, quando recebeu o convite do São Paulo para encabeçar o projeto do clube no futebol feminino. A escolha foi por participar dessa nova fase da modalidade no Brasil.

Por ter sofrido muito com o preconceito e a falta de oportunidades que o futebol reserva para as mulheres, Cristiane sempre foi uma das atletas mais ativas nas reivindicações por uma mudança nessa realidade. Agora que a mudança "chegou" – ao menos ao que parece -, ela faz questão de fazer parte disso. E aceitou até mesmo disputar apenas a segunda divisão nacional pelo São Paulo, que é a vaga garantida ao clube neste ano – houve uma mudança na Série A2 do Brasileiro para acolher os times de camisa que formaram equipes femininas em 2019.

(Foto: Renata Damasio/saopaulofc.net)

"Não tem problema jogar segunda divisão. Até escutei deles que 'tem uma menina que recusou ir para o Barcelona para jogar segunda divisão'. Eu não entendo, porque a gente pede tanto por essa estrutura, pede tanto que a modalidade cresça, aí vem o São Paulo com essa proposta e a gente vai falar que não vai porque vai jogar a Série B? Vai começar por baixo, não adianta você querer comer a picanha, tem que comer o osso primeiro. Para mim é um desafio muito bom, vou trabalhar com meninas muito mais novas que eu e eu vou tentar orientá-las da melhor maneira possível, acho que é isso, o trabalho é conjunto, todo mundo cresce", pontuou a atacante.

No São Paulo, a ideia não é apenas que Cristiane seja responsável pelos gols. O clube aposta na jogadora para ser uma espécie de "embaixadora" do futebol feminino, para atrair patrocínio, público e interesse para a modalidade. O próprio anúncio da jogadora já causou grande movimentação nas redes sociais do clube – o post do São Paulo no Instagram com a notícia da contratação de Cristiane teve maior resultado do que a da contratação do tão esperado goleiro, que veio com Thiago Volpi no fim de dezembro – e a fornecedora de material esportivo do clube, Adidas, já disponibilizou para venda as camisas com o nome e o número da atacante.

"O São Paulo mostrou um projeto muito bom, eles estão investindo na modalidade. Eu sei que para algumas pessoas é loucura trocar a Europa para ficar no Brasil, mas para mim a família vem primeiro, minha mãe está com problemas de saúde e eu queria ficar. E aí o São Paulo me abraçou", afirmou ela.

"Eles viram em mim uma forma de fazer a modalidade crescer, de atrair patrocinadores, marketing, mídia e eles estão conseguindo, então estou muito feliz, acho que tenho muita coisa para oferecer. Ajudar da melhor maneira possível e tentar fazer com que a modalidade cresça. Na Inglaterra é assim, na Espanha é assim, então por que no Brasil não pode ser? Os clubes começam a perceber que dá para fazer, você só tem que querer. Hoje eu estou feliz demais com o São Paulo já colocando a camisa ali com nome para vender, as pessoas se interessando, basta querer que acontece".

A estreia de Cristiane com a camisa tricolor deve acontecer em março, quando começa a Série A2 do Brasileiro feminino.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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