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O desabafo de uma jornalista esportiva: nem figurões do futebol escaparam

Roberta Nina

16/01/2019 04h00

(Foto: Reprodução/Instagram)

Jornalista esportiva com experiência em cobertura de grandes eventos esportivos, como Copa do Mundo, Libertadores da América e Jogos Olímpicos, Mayra Siqueira perdeu o sono em uma noite dessas e desabafou em seu Twitter sobre alguns episódios – a maioria deles bem chatos, inclusive – envolvendo casos de machismo e assédio que recebeu enquanto trabalhou na editoria esportiva por quase 10 anos. "Fui ficando mais velha e sincerona demais, né?", disse a jornalista às dibradoras em entrevista.

Algumas das revelações de Mayra foram veladas, especialmente quando se referiam aos jornalistas de grandes veículos. Nominalmente, a ex-repórter da Rádio CBN, citou episódios envolvendo seu trabalho com nomes como os treinadores Tite, Leão e Muricy Ramalho, o jogador Dagoberto e o narrador Cléber Machado.

"Tenho entrado pouco no Twitter, mas estava sem sono numa noite e acessei. Vi esse lance de 'um like, uma curiosidade' e quis fazer mais pelo lado de contar curiosidades, não só a parte boa do jornalismo. Ficou meio rancoroso, até tem coisas positivas pra falar, mas eu acho legal expor esse outro lado. Comecei a fazer e não parei mais. Se eu lembrar de outras coisas, posso até colocar, mas acho que já está bom e já perdeu o timing do negócio", revelou ao blog. 

Segundo a própria jornalista, as pessoas reagiram às declarações de maneira positiva, dizendo que ela estava certa em trazer isso à tona. E é claro que passar por todas essas situações não é exclusividade de Mayra (o próprio UOL já falou sobre isso em outras ocasiões). Conversando com a comentarista do programa Troca de Passes do SporTV, Ana Thaís Matos, ela também frisou como ainda incomoda a muitos olhares masculinos uma mulher ocupando um lugar de fala dentro do jornalismo esportivo.

"É interessante perceber que, para muitos homens, mulher falando de futebol ainda é uma aberração", nos disse Ana Thaís, em entrevista durante a Copa do Mundo da Rússia (saiba mais).

Seja como repórter de campo, narradora, comentarista, árbitra, treinadora, jogadora ou qualquer que seja a sua ocupação, ainda são muitos os que insistem em dizer que o futebol não é lugar para mulheres e fazem de tudo para inibir ou intimidar a presença feminina nessa área.

"Fiz alguns programas no SporTV onde o apresentador não falou comigo, nem no estúdio e nem fora dele. Essa pessoa foi a mesma que disse, fora do ar, que não gostava de ver mulher comentando sobre futebol"

Se a thread (nome dado para uma sequência de publicações no Twitter) de Mayra chegou até os medalhões do esporte citados na rede social, ela não sabe dizer. Mas também acredita que eles jamais se pronunciariam sobre isso.

"Eu acho que (os posts) chegaram até esses caras, mas você acha que eles vão ler? Vão repercutir? Vão refletir sobre isso? Não vão. Ninguém da grande mídia se pronunciou sobre isso, somente os jornalistas mais low profile", disse.

Mayra chama atenção para que as pessoas não confundam ou generalizem um comportamento ou uma fala isolada de uma pessoa com aquilo que ela é de verdade, no dia-a-dia. É importante separar "a pessoa física" da "pessoa jurídica", usando uma expressão mais comum.

(Foto: Reprodução/Instagram)

"É um exercício pra gente, de tentar fazer essa separação, saber quando tem que criticar, sem precisar ficar só falando que a pessoa é fofa, legal e etc. Até mesmo na thread eu citei dois casos, um deles eu defendi um cara que foi super meu amigo na rádio, mas deu uma escorregada quando no primeiro dia que entrei na rádio, ele me perguntou se eu gostava de futebol. Pô, você vai perguntar isso pra quem entra pra trabalhar no esporte? Não. Você pergunta isso pra uma mulher. E ele morreu de vergonha depois, disse que eu tinha razão e que nem sabia porque tinha feito isso. Sei que ele não é uma pessoa escrota e tentei passar isso da melhor forma pra ele", relembrou.

"Também teve um caso com um antigo chefe que todo dia entrava na redação e fazia teste comigo. Me falava 'quem foi sicrano? Onde jogou sei lá quem?' e fazia isso porque só tinha homem na redação e todo mundo sabia. Ele queria provar pra mim e pra todo mundo que eu não tinha que estar ou não merecia estar lá. Hoje ele morre de vergonha disso, já me pediu desculpas e faz até campanha contra esse tipo de postura em redes sociais."

Os citados 

"Eu aprendi a gostar do (técnico) Muricy depois, esse é o jeito dele. Sabe assim quando você tem um avô preconceituoso? Você pensa: 'pô eu gosto pra caramba do meu avô, eu fico louca quando ele defende umas ideias estranhas, mas é meu avô, eu tenho um carinho por ele'. Aí você pensa: esse cara eu não vou mudar. Não concordo com algumas coisas que ele fala para jornalistas – e jornalistas mulheres – mas eu relevo, vai", nos contou.

Pelo Twitter, Mayra também afirmou que o jogador Dagoberto se negou a responder uma pergunta sua e que, na sequência, o repórter Fernando Fernandes da TV Bandeirantes, fez a mesma pergunta para o atleta e ele respondeu.

Do treinador Leão, Mayra contou que recebeu olhares (de reprovação) de cima a baixo e resposta com desdém. Já do técnico da seleção brasileira, Tite, ela disse que ganhou um pedido de desculpas após uma grosseria.

Carreira no jornalismo esportivo

Formada em Jornalismo pela PUC, Mayra não tinha a intenção de trabalhar com o esporte. Ela vivia uma rotina de atleta já que pratica natação desde os 14 anos e participa ativamente de competições.

"Justamente por ser apaixonada por esporte, trabalhar no jornalismo esportivo não era uma opção quando entrei na faculdade. E justamente por ser apaixonada por esporte e ser atleta, eu ficava louca da vida porque 99% do que a mídia falava era só futebol. Via atletas batendo marcas e recordes e isso ganhava apenas 15 segundos de destaque, literalmente", recordou.

Mayra fez seu primeiro estágio na área no Portal Trivela cobrindo futebol internacional, depois disso, durante um ano foi estagiária do site Globoesporte.com onde conta que aprendeu demais. Mas foi na Rádio CBN onde seu trabalho ganhou destaque e despontou. "Ali, eu saía o tempo inteiro pra rua, cobrindo jogos, viagens, coberturas, era bem mão na massa", afirmou.

Era muito frequente ouvir a voz de Mayra na cobertura esportiva da Rádio CBN, onde trabalhou por sete anos e, depois da fusão entre CBN e Globo, foram mais dois anos de casa.

(Foto: Reproução/Instagram)

Com toda experiência acumulada, Mayra começou a participar do programa Seleção SporTV no canal por assinatura. Foi lá dentro que a repórter viveu a maioria das situações que relatou no Twitter. "Fiquei dois anos e meio fazendo o Seleção. Óbvio que a TV tem uma exposição gigantesca, mas quando eu cheguei lá, já era uma profissional mais formada", contou.

Foram quase dez anos cobrindo o esporte, até o rumo da carreira profissional mudar. "Eu já estava cansada do esporte. Depois da fusão (entre Rádio CBN e Globo) ficamos restritos a muita coisa. Chegamos num momento de corte de custos e de pessoas  onde fazíamos só (cobertura de) estúdio, e eu não gostava muito de ficar só em estúdio, queria cobrir os jogos."

(Foto: Reprodução/Instagram)

Em um dos cortes da rádio, Mayra foi demitida e viu ali a possibilidade que precisava para mudar de área. "Não sabia nem por onde começar. A gente sai (de um emprego) achando que só sabemos fazer aquilo e que é nisso que somos bons, mas eu descobri que eu sei fazer tanta coisa nessa vida, então porque vou me restringir só para quem não quer me reconhecer?", revelou.

E sim, a falta de reconhecimento foi o que acabou pesando para a jornalista. "Fiquei sete anos (trabalhando) como repórter principal da rádio, fazendo as principais coberturas e só estava abaixo do meu chefe. E eu ganhei o mesmo salário, sem aumento, por sete anos. Trabalhava todo fim de semana, folgava apenas um final de semana por mês, não tinha um feriado, não conseguia ter vida."

O jornalista Mario Marra participando de um programa com Mayra na Foxbit (Foto: Reprodução/Instagram)

Quando saiu da Rádio Globo/CBN, Mayra tinha fechado com o jornal esportivo Lance!. Iria trabalhar como setorista  do jornal, mas recebeu o convite de uma empresa chamada Foxbit (corretora brasileira de Bitcoin que faz a intermediação de compra e venda de moedas digitais) e aceitou o desafio de mudar completamente de área e virar apenas uma espectadora do futebol. "Achava que nunca entenderia de bitcoins na minha vida, mas descobri que eu sei fazer outras coisas além do jornalismo esportivo"

Lições do jornalismo esportivo

Atualmente, Mayra não tem a intenção de voltar a trabalhar com o esporte, a menos que receba uma proposta interessante e que valha a pena. "Se me fizerem uma proposta incrível, posso analisar. TV é um lugar legal de trabalhar, e se for uma proposta boa, onde eu consiga ter voz, aceito voltar a encarar situações como as que citei e brigar pra que sejam cada vez menos frequentes."

Ao longo da carreira, Mayra foi crescendo, aprendendo com seus erros e com tudo aquilo que ouvia de negativo nas redes sociais. E ali percebeu que os piores comentários não vinham dos internautas, mas sim dos colegas de profissão. As lições fazem parte da pessoa que ela se tornou hoje, conseguindo enxergar sua capacidade e de outras mulheres como profissionais.

Vanessa Riche, Camila Carelli, Ana Thaís Matos, Fernanda Gentil e Mayra Siqueira no Convocadas da Rádio Globo (Foto: Reprodução/Instagram)

"Foi recebendo comentários pelas redes sociais do tipo 'vai lavar louça', 'fulana tem informação porque transa com jogador', que eu comecei a entender o nível do machismo. Eu passei a me desconstruir e também, a parar de julgar o que outras mulheres fazem e como agem. O que eu vou esperar de 'haters' na rede social? Pra mim é muito pior ver cara que trabalha com você usando seu comentário com palavras diferentes e ganhando crédito só por ser homem. É ver homens fazendo cara feia enquanto você fala num debate só pelo fato de ser uma mulher falando. Ou quando todo mundo te atropela enquanto você tenta falar e não consegue. Isso pra mim é muito pior, porque são caras que estão em pé de igualdade com você e estão te tratando dessa forma", disse.

(Foto: Antonio Cícero/Reprodução Instagram)

"Eu tenho convicção de que, desde que comecei a trabalhar no jornalismo esportivo, eu fui no mínimo, igual aos meus colegas. Fui melhor do que muitos e fui pior do que alguns dos caras que estão ali há muitos anos e que preciso comer muito arroz com feijão pra chegar onde eles estão. Fora isso, eu não era das piores, em conhecimento, preparo, apuração e capacitação. Sei que a mulher que consegue chegar um pouquinho mais adiante, tem que ser boa de verdade, porque passou pelo critério de gente demais e sempre questionada. Isso, querendo ou não, faz a gente mais forte."

Jornalistas que admira

"São tantas", nos disse Mayra. Mas desafiada a lembrar rapidamente, escolheu quatro delas, a primeira, Natalie Gedra, da ESPN. " Era ela quem eu ouvia quando comecei a fazer rádio, em São Paulo, e achava demais ver uma mulher fazendo isso. Hoje ela está voando na Inglaterra, fazendo um baita trabalho e ela tem uma postura que eu sempre admirei muito como profissional."

Natalie Gedra cobre a Premiere League pelos canais ESPN (Foto: Reprodução/ESPN)

A segunda escolhida foi uma ex-companheira de faculdade e de trabalho, Ana Thaís Matos do SporTV. "Trabalhamos muito tempo juntas e fizemos a mesma faculdade, inclusive. Não éramos amigas na época. Eu e ela somos um case que representa tudo aquilo que já falei aqui. A gente rivalizava, se comparava e tinha até uma rixa meio visível. Nos últimos anos a gente se uniu mais e hoje a gente fala uma pra outra 'caramba, porque a gente não trabalhou juntas?'. Juntas a gente podia fazer a diferença. Mas ela é uma pessoa que eu admiro demais. A Ana sempre estudou muito, sempre achei ela melhor do que eu, mais bem preparada sobre o conteúdo de futebol. A Ana respira futebol na vida. Ela é uma profissional que ainda vai muito longe."

(Foto: Reprodução/Twitter)

A jornalista Bárbara Coelho também foi citada por Mayra. "Foi uma honra tê-la conhecido e um achado do Grupo Globo. Ela entende, estuda mais que a maioria, sabe do que está falando e é bem informada. Tem carisma e um jogo de cintura ímpar, pra se sair bem de qualquer situação chata sem perder o rebolado. É o tipo de pessoa boa que atrai coisa boa."

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Domingueeereeeira 😆😎

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E para finalizar, Mayra não esqueceu o pioneirismo daquela que começou a pavimentar os caminhos para que ela e tantas outras jornalistas esportivas surgissem e tivessem voz. "Também cito a Regiani Ritter porque é um exemplo que nos abriu portas." Regiani comanda o "Disparada no Esporte" e o "Revista Geral" na Rádio Gazeta AM.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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