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Jóia do skate, Pâmela Rosa é aposta para 2020 e busca ouro no Street League

Roberta Nina

11/01/2019 15h00

Pâmela no Street League deste ano, em Londres (Foto: Streetleague.com / Justin Crawford)

Com apenas 19 anos, Pâmela Rosa não é mais uma promessa no skate feminino. Estamos falamos de uma das mais talentosas atletas do Brasil que já alcançou o topo diversas vezes. E neste final de semana (12 e 13/01), ela entrará na pista da Arena Carioca 1 no Rio de Janeiro em busca de uma conquista inédita para sua carreira: o Mundial Street League.

"É o título que falta pra mim. Não tenho nenhuma adversária específica a ser batida. Ali, na hora, é todo mundo correndo igual. Estou tranquila", revelou em entrevista às dibradoras após se classificar na etapa anterior, disputada em Londres.

O campeonato será decisivo para a definição do ranking do WC Tour de 2019 e também contará pontos para a classificação para os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. No total, o torneio conta com a participação de 54 mulheres e 114 homens de 42 países diferentes

É verdade que Pâmela persegue o título do maior circuito de skate street do mundo há anos, mas enquanto isso não aconteceu, tratou de fazer história e cravar seu nome na modalidade.

Ouro no X Games de Oslo, em 2016 (Foto: PHIL ELLSWORTH / ESPN IMAGES)

É bicampeã mundial (2013 e 2014), tetracampeã brasileira, bicampeã sulamericana, tricampeã carioca e cinco vezes premiada no X-Games com duas medalhas de ouro, duas de prata e uma de bronze. Foi (e ainda é) a atleta mais jovem a conquistar uma medalha de ouro nos X Games, na edição de Oslo, em 2016, com apenas 16 anos.

Dropando desde cedo

Pâmela mora em São José dos Campos e o skate entrou por acaso em sua vida, entre 8 e 9 anos. "Um colega do meu irmão foi fazer um trabalho de escola lá em casa e levou o skate dele. Fiquei olhando, quis andar e ele não deixou porque eu era pequena e tinha medo de me machucar. Mesmo assim, peguei o skate e desci a rua da minha casa sozinha", revelou no podcast das dibradoras pela rádio Central3.

A partir dali, o interessa da garotinha começou a crescer. Perto de sua casa havia uma pista de skate onde ela ficava olhando o pessoal andar, fazer as manobras e aos 10 anos de idade ganhou seu próprio skate. "Meus pais acharam que seria só uma fase e que ia passar, mas não foi assim. Eu fui me dedicando, treinando e comecei a competir. Duas semanas depois de ter começado a andar, participei de um torneio e fiquei em terceiro lugar", relembrou.

(Foto: Divulgação)

Tornar-se uma skatista profissional aconteceu naturalmente. Os amigos iam avisando Pâmela sobre os torneios e ela passou a competir. "Ia para o Maremoto, Campeonato Paulista e Brasileiro. Também tive a oportunidade de competir na Argentina, mas quando fui para o X Games vi que o negócio estava ficando sério", contou.

Mas não pense que Pâmela encarava adversárias fáceis. A diferença de idade entre as participantes era gritante e foi necessário desbancar garotas com mais do que o dobro de sua idade. "Aos nove comecei a competir com meninas, mas nunca da minha idade. Elas tinham 20 e poucos anos. Quando ganhei o X Games eu tinha 16 anos. As outras meninas que estavam competindo tinham na faixa de 28, 30 anos", contou Pâmela acrescentando que começou a competir com meninas de sua idade há pouco mais de dois anos.

Outro grande detalhe que faz diferença na preparação do skatista é encontrar boas pistas para andar. E Pâmela é bem enfática ao falar sobre a estrutura que o Brasil oferece aos atletas.

"Tem muita diferença entre as pistas do Brasil e de fora do país. Não posso te citar uma pista boa para treinar e andar de skate por aqui. Gosto muito da pista do Jockey, mas não tem comparação com os Estados Unidos, por exemplo. Lá, praticamente todos os dias tem uma pista nova para andar em várias cidades. Ali é o mundo do skate."

Talvez a realidade possa mudar já que o skate fará parte do ciclo olímpico de 2020, no Japão. E é quase que certo que Pâmela participará deste marco.

A joseense foi convocada recentemente para a primeira seleção brasileira de skate e é um dos nomes cotados para defender o Brasil na Olimpíada de Tóquio. A classificação acontece por meio do ranking e a cada campeonato conquistado, a atleta soma pontos para ser convocada.

"Por conta da Olimpíada, as marcas e patrocínios já estão começando a enxergar o skate de maneira diferente. As famílias também, permitindo que mais meninas possam praticar", afirmou.

O crescimento feminino nas pistas de skate

É claro que as dificuldades para encontrar torneios femininos e garotas de sua idade praticando o esporte também foi difícil. O próprio Street League – o campeonato que ela ainda não ganhou – passou a ter etapas femininas há cerca de três anos.

Antes de Pâmela chegar na cena, outras mulheres precisaram pavimentar esse caminho, uma delas foi Karen Jonz, que nasceu em Santos e começou a praticar a modalidade aos 17 anos, em 2000.

Karen foi a primeira a conquistar o ouro brasileiro feminino nos X Games em 2008. Foi também a primeira brasileira a trazer o título de campeã Mundial no mesmo ano e campeã brasileira (vertical e street) em 2012. "Não havia mulheres andando de skate quando eu comecei, mas hoje a realidade é outra", revelou Karen em nosso podcast.

Karen foi uma das fundadoras da Associação Brasileira de Skate Feminino (ABSFE) e uma grande responsável por dar início a um processo de evolução e popularização do esporte entre as mulheres.

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Procurando uma princesa e rei no castelo, andando de skate e vlog da nenemtuber. Link nos destaques.

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Hoje ela divide a carreira com os cuidados com a filha Sky de apenas três anos e segue na luta por premiações igualitárias nos torneios. "Acredito que os campeonatos precisam começar a oferecer prêmios maiores para mulheres para que o interesse aumente. Não dá mais para esperar que as mulheres apareçam para que o prêmio aumente. As últimas reivindicações não aconteceram por parte das skatistas, mas sim por manifestações públicas. As pessoas acharam injusto ver uma premiação diferente para homens e mulheres, então os torneios vão precisar se adequar a essa nova realidade", afirmou às dibradoras em fevereiro de 2018, quando aconteceu a polêmica do campeonato Oi Skate Jam, que premiou a vencedora feminina com 5 mil reais e o vencedor masculino com 17 mil.

A outra paixão de Pâmela

Além do skate, Pâmela é apaixonada por música. E falando especificamente sobre samba, já é uma tradição vê-la todo ano curtindo o Carnaval.

 

Pâmela na Tom Maior (Foto: Facebook / Pâmela Rosa)

"Desde que nasci eu vivo no meio do samba. Antes do skate já era da escola de samba e sempre desfilo na Tom Maior. Em 2015 eu saí num carro alegórico que falava sobre adrenalina e estava andando de skate. Mas eu gosto mesmo é de sair na bateria tocando ganzá", revelou a atleta que estará novamente na Tom Maior este ano, além de desfilar na Leões do Ita, escola de samba de Ilhabela onde é diretora de ganzá na bateria.

Quando o campeonato permite, Pâmela gosta de ouvir músicas durante sua apresentação. E geralmente funciona assim: um samba enredo na primeira volta, um rap na segunda e uma música gospel pra fechar.

Dançando e dropando (Foto: Facebook / Pâmela Rosa)

Foi assim no X Games de 2016 quando ganhou sua primeira medalha de ouro, competindo contundida. Pâmela Rosa escolheu uma música bem simbólica dos Racionais Mc's para embalar sua conquista. "Não adianta querer, tem que ser, tem que pá. O mundo é diferente da ponte pra cá", diz um dos versos do rap "Da Ponte pra Cá" e  que ilustra muito bem a trajetória da menina que saiu do interior de São Paulo, com tantas desvantagens, para ganhar reconhecimento nas pistas do mundo.

Campeonato Mundial Etapa Rio de Janeiro – Street League Skateboarding
A partir das 8h (abertura dos portões às 12h, no dia 12, e às 14h, no dia 13/01)
Ingressos: http://streetleague.com/tickets/
O evento terá transmissão ao vivo no site da Street League.
*A premiação do torneio ainda não foi divulgada. Não sabemos se haverá valores diferentes para os vencedores das categorias feminino e masculino

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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