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2018 foi o ano das mulheres no Jornalismo Esportivo

Renata Mendonça

27/12/2018 09h35

Luciana Mariano voltou a narrar após 19 anos (Foto: Divulgação)

O ano de 2018 chega ao fim e pode-se dizer que ele "mudou a cara" da televisão brasileira no esporte. Se ao longo das últimas décadas, nos acostumamos a ver apenas rostos masculinos apresentando, narrando e comentando programas esportivos na TV, desta vez o público teve a chance de acompanhar mulheres ocupando esses postos nos principais canais da mídia esportiva no país.

Quase todos os canais da TV fechada no esporte tiveram vozes femininas narrando jogos em 2018 (ESPN, Fox Sports e Esporte Interativo). As mulheres também passaram a ocupar mais espaços de destaque nos comentários nas mesas de debate na televisão. E, na reportagem, nomes consagrados deram contribuições importantes para o esporte brasileiro – como foi o caso de Joanna de Assis com a reportagem que revelou o escândalo de abuso sexual na ginástica.

Para além de tudo isso, uma outra grande conquista aconteceu para as mulheres no Jornalismo Esportivo: o movimento #DeixaElaTrabalhar marcou uma movimentação inédita delas contra o assédio e os abusos que sofriam no dia a dia de trabalho.

Relembramos aqui alguns dos principais acontecimentos que fizeram deste o ano das mulheres na cobertura esportiva. E ressaltamos também um ponto a ser melhorado: a ausência de jornalistas negros no esporte.

Narração

A maior novidade ficou por conta da narração. Desde 1999, não havia vozes femininas comandando microfones em jogos de futebol no Brasil. A última vez que isso havia acontecido foi em um Campeonato Pernambucano quando Luciana Mariano narrou alguns jogos do estadual em um projeto dividido com Luciano do Vale na Bandeirantes. Antes dela, somente na década de 1960 o Brasil contou com narradoras – e também por um curto período de tempo, quando Zuleide Ranieri e Claudete Troiano comandavam as transmissões na Rádio Mulher.

Renata Silveira narrou jogos da Copa e foi contratada pela Fox Sports posteriormente (Foto: Reprodução)

Mas em 8 de março de 2018, esse tabu foi quebrado, quando a mesma Luciana Mariano voltou a narrar um jogo de futebol, desta vez na ESPN, em RB Leipzig x Zenit, pelas oitavas de final da Europa League. Pouco tempo depois, ela foi confirmada como narradora contratada do canal, transmitindo jogos de campeonatos europeus e também do Paulista Feminino, quando protagonizou transmissões 100% femininas nas semifinais e finais do torneio.

"Estamos atrasados. No contexto todo, acho que essa história ja deveria ter amadurecido há muito mais tempo, no entanto a gente ainda está no berçário. A intenção aqui não é concorrer. É que a gente possa trabalhar sempre. E aí vai acontecer de forma natural que a gente (mulheres) seja chamada pra narrar em vários outros eventos esportivos, assim como os homens", disse Luciana Mariano às dibradoras ainda em junho, questionando quantas narradoras já tinham sido contratadas para trabalhar regularmente na TV.

À época, ela era a única. No entanto, 2018 termina com pelo menos mais outras três narradoras ganhando espaço regular na mídia esportiva. Renata Silveira foi contratada pela Fox Sports e foi a primeira mulher a narrar a final da Libertadores e a primeira a narrar também um título internacional de um clube brasileiro – com o Athlético Paranaense na Copa Sul-Americana. Além dela, Isabelly Morais é outra que conseguiu um espaço na Rádio Inconfidência em Minas Gerais – ela também foi uma das narradoras da Copa do Mundo pela Fox Sports no projeto "Narra Quem Sabe" e hoje já acumula mais de 60 transmissões no currículo. Para fechar, Elaine Trevisan, segunda colocada do processo seletivo "A Narradora Lay's" do Esporte Interativo ganhou a chance de narrar jogos das categorias de base do Paulista pela Rede Vida e é outro nome de peso fortalecendo as vozes femininas no futebol.

Copa teve jogo com narração e comentários feito apenas por mulheres na Fox (Foto: Divulgação)

Vivi Falconi, vencedora do reality do EI chegou a ser oficializada no canal, após ter narrado a semifinal da Champions League no Santiago Bernabéu, mas com o encerramento das atividades da emissora, acabou ficando sem contrato.

De todas as formas, 2018 revelou uma nova geração de vozes femininas para ser aproveitada: Além das acima mencionadas, Camilla Garcia, Manuela Avena, Giovanna Kiill, entre outras que se destacaram nos processos seletivos de Fox Sports e Esporte Interativo.

Comentaristas

Há algumas décadas, as mulheres já ocuparam os postos da reportagem esportiva e já não é mais tão raro vê-las nos gramados entrevistando os jogadores e participando da transmissão. Mas quando passa da informação para a opinião, a presença delas sempre foi muito mais restrita – ou quase nula.

Neste ano, porém, mais essa barreira foi quebrada. Na Copa do Mundo, a Fox utilizou diversas mulheres como comentaristas dos jogos – desde a jornalista Vanessa Riche, até jogadoras da seleção feminina, como a goleira Bárbara -, e no SporTV, Ana Thais Matos foi a voz feminina diária do Troca de Passes (programa que foi um sucesso durante o Mundial e acabou ocupando a grade fixa do canal).

Ana Thais Matos faz o Troca de Passes no SporTV (Foto: Reprodução)

"Você começa a ver umas mensagens do tipo: 'nossa, mas você fala muito bem de futebol! Você entende mesmo!'. Como se fosse um absurdo uma mulher entender, sabe? Como se a gente fosse uma aberração, de outro planeta", contou Ana Thais em entrevista às dibradoras no período da Copa do Mundo.

Também no SporTV, Bárbara Coelho conquistou seu espaço passando de apresentadora a comentarista em alguns programas – ela participou algumas vezes ao longo do ano do Bem, Amigos! e do próprio Troca de Passes.

A repórter da Rádio Globo, Camila Carelli, também foi um nome de destaque no canal com participações no Redação SporTV ao longo do ano e a paranaense Nadja Mauad também ganhou um espaço de opinião importante na TV trazendo destaque para a boa campanha do Athlético Paranaense na Sul-Americana.

Juliana Cabra, ex-jogadora do Brasil e atual comentarista da ESPN Brasil (Foto: Reprodução/ESPN)

Na ESPN, a ex-jogadora Juliana Cabral passou a aparecer mais nos programas de debate, como Bate-Bola, e também passou a fazer análise dos jogos nos programas.

O que ainda tem sido mais esporádico é ver mulheres nos comentários das transmissões de jogos. No entanto, isso é algo que deve mudar para 2019.

Reportagem

O grande furo de reportagem do ano no Jornalismo Esportivo veio de Joanna de Assis em abril. A repórter da Rede Globo revelou o maior escândalo sexual da história do esporte brasileiro quando trouxe à tona os mais de 40 casos de atletas da ginástica que denunciaram o técnico Fernando Lopes por abuso.

Júlia Guimarães pediu respeito ao torcedor que tentou beijá-la durante ao vivo (Foto: Reprodução)

Em junho, foi a vez das mulheres se destacarem na Copa do Mundo, em uma cobertura que entrou para a história por ser a que teve maior quantidade de mulheres (14% dos jornalistas credenciados, enquanto éramos apenas 10% em 2014). Além disso, foi a primeira vez em que o assédio praticado contra as repórteres se tornou notícia e gerou revolta no país – a imagem de jornalista do SporTV, Júlia Guimarães, pedindo respeito ao torcedor que tentou beijá-la durante um ao vivo, foi uma das mais marcantes desse Mundial.

E falando em assédio, este ano trouxe também um movimento histórico e inédito entre as jornalistas esportivas reivindicando uma premissa básica de qualquer emprego: trabalhar em paz. Após décadas sofrendo assédio diário de torcedores, dirigentes e até mesmo de colegas nas redações, as mulheres do esporte decidiram se unir para dizer "chega" e criaram o #DeixaElaTrabalhar.

Mais do que dar um recado aos homens, esse movimento serviu também para conscientizar as próprias jornalistas do preconceito contra o qual lutam todos os dias. Uma união que as fez mais fortes para lutar por mais espaço e voz nessa área ainda tão dominada pelos homens.

Onde estão os/as negros/as?

É preciso, sim, comemorar e valorizar as conquistas do Jornalismo Esportivo, que se abriu um pouco mais para a diversidade, para reunir vozes masculinas e femininas que, independente do gênero, trazem o conhecimento e o preparo esperado para ocupar aquele lugar. Mas também vale apontar um detalhe no meio de tudo isso: onde estão as vozes negras do esporte? Infelizmente, ainda é muito raro encontrar apresentadores (as), repórteres, ou comentaristas negros na televisão – e até mesmo nas redações de sites ou jornais esportivos. Representatividade importa, sim, para que ela se multiplique e cheguemos ao dia em que sequer seja notada: o dia em que será tão normal ver mulheres, homens, brancos e negros na TV que isso sequer precisará ser notícia.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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