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O beijo não consentido ‘com todo o respeito’: a rotina da mulher no esporte

Renata Mendonça

05/12/2018 06h58

Gabriela Ribeiro foi alvo de assédio quando cobria o Atlético-PR (Foto: Reprodução Instagram)

A repórter Gabriela Ribeiro, do SporTV, estava trabalhando na cobertura do embarque do Atlético-PR para a Colômbia onde o time disputará a final da Copa Sul-Americana quando foi beijada por um homem no meio da torcida. Aquela cena clássica de muitas pessoas ao redor, um cara vem e tasca o beijo na bochecha da repórter.

Para alguns, parece engraçado, mas o que não é nada engraçado neste contexto é que ele se repete todos os dias com todas as mulheres que trabalham no jornalismo esportivo. De bate-pronto, já dá para citar pelo menos três casos: a repórter do Esporte Interativo, Bruna Dealtry, a do SporTV Julia Guimarães, e a da CBF TV, Laura Zago – com ela, inclusive, foram pelo menos três vezes em menos de um mês, durante a Copa do Mundo. É tão recorrente, que se perguntarem para qualquer mulher que trabalha com jornalismo esportivo (especialmente na televisão) se ela já passou por uma situação como essa, pelo menos 90% vai dizer que sim.

Foto: Reprodução Instagram

Isso porque quando não é o beijo, tem a passada de mão, o grito de "gostosa" ou de "puta" ou "vagabunda" e os tantos outros assédios de todos os dias. Tudo isso durante o período em que elas estão tentando trabalhar. Não à toa, neste ano ecoou o grito de todas as jornalistas em março, quando elas se uniram pela campanha #DeixaElaTrabalhar pedindo uma coisa que deveria ser básica em qualquer profissão – e em qualquer situação: respeito.

Mas esse, no caso, foi justamente a justificativa do torcedor do Atlético-PR para ter beijado a repórter. Talvez como resultado da campanha e de tudo que se tem falado sobre assédio no jornalismo esportivo, outros homens que estavam ao redor repreenderam o responsável pelo beijo por sua atitude. Ao que ele respondeu: "Foi com todo o respeito".

Laura Zago em um dos inúmeros casos de assédio que sofreu durante a Copa (Foto: Reprodução Instagram)

Fico pensando qual é o conceito de "respeito" empregado num beijo dado em alguém desconhecido e sem autorização. É difícil exemplificar isso para os homens, porque a maioria dos que comenta defendendo o rapaz – e reclamando do "mimimi" do futebol "que está chato" porque agora não se pode nem tascar um beijo numa repórter em paz – iria até dizer que gostaria de estar na situação de ser beijado por uma desconhecida aleatoriamente na rua.

Então vamos pensar em um exemplo que talvez os atingiria: e se fosse um homem que lhe tascasse um beijo do nada no meio do seu trabalho, sem a sua permissão, sem que você desse qualquer abertura para isso. Você está lá na reunião apresentando um novo projeto para um cliente, entra um cara aleatório na sala, te dá um beijo e sai. Qual seria a sensação?

É difícil, provavelmente impossível, explicar para um homem a sensação de andar na rua com medo de ser estuprado, ter seu corpo violado. É um sentimento de vulnerabilidade e impotência esse de que, não importa o que você estiver vestindo, o que estiver fazendo, onde estiver andando, quem chegará antes será sempre a sua condição de mulher. E por ser mulher, você é "obrigada" a ouvir e tolerar os comportamentos abusivos dos homens sobre seu corpo.

Eles só pararão quando houver outro homem para pará-los. O respeito é sempre a eles, nunca a nós. Quantas vezes você ouviu um "gostosa" na rua e, quando o assediador viu que havia um homem em sua companhia, pediu desculpas para ele. Porque não foi você que ele ofendeu, foi o seu "dono" – é como se a sua existência fosse nula e dependesse da presença de um homem para ser considerada.

Julia Guimarães reagiu ao assédio e pediu respeito (Foto: Reprodução SporTV)

Por isso, o pedido de desculpas do torcedor à repórter veio só depois que outros homens o alertaram de sua atitude. Ali ele precisou se retratar – não porque a moça havia se sentido ofendida (afinal, o beijo foi "com todo o respeito"), mas porque os homens ao redor sentiram a ofensa e tomaram as "dores" dela.

Mas isso nem sempre acontece – já o assédio, esse sim, é certo. A repórter Gabriela Moreira, da ESPN, lembrou que três anos atrás, ela fez um texto em suas redes sociais sobre o machismo que sofreu na cobertura do título do Palmeiras na Copa do Brasil de 2015. "Você vai ver eu te chupando todinha, sua vagabunda", foi uma das frases que ouviu por ininterruptos 40 minutos enquanto trabalhava.

Pensando em 2018, foram tantos casos que mal cabem aqui. Além dos já citados anteriormente, teve a repórter Renata Medeiros, da Rádio Gaúcha, agredida no Beira-Rio, a repórter Kelly Costa, da RBS TV, que foi xingada na transmissão de São José e Brasil de Pelotas. Monique Danello, do Esporte Interativo, fazia uma entrada ao vivo antes da semifinal da Copa do Mundo quando viu um torcedor se aproximar e tentar beijá-la. Uma jornalista mexicana participava de outra transmissão ao vivo na Liga dos Campeões da Concacaf quando um torcedor apertou duas vezes suas nádegas, algo que fez com que ela parasse a reportagem para reagir indignada.

Foram tantos outros que não viraram notícia, mas seguem assombrando a vida de quem trabalha com esporte. É tão comum, que já virou "rotina" do trabalho das mulheres nesse contexto. É como se, em algum momento, você tivesse de passar por isso, porque faz parte do roteiro de ser jornalista esportiva. Não, não faz. Não vai fazer mais. Está na hora de o respeito entrar nesse roteiro. Um beijo não consentido durante o trabalho (aliás, em qualquer situação) não é aceitável. Um toque não permitido não é "brincadeira". Tudo isso é violência, é desrespeito, é inconcebível. A rotina das mulheres no jornalismo esportivo precisa ser de trabalho, não de assédio.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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