Topo
Dibradoras

Dibradoras

Quem é a 1ª vencedora da Bola de Ouro e por que houve polêmica na premiação

Renata Mendonça

04/12/2018 07h18

Foto: AFP/Getty

Ada Hegerberg. Guardem esse nome, porque ele já está na história do futebol mundial. A jogadora noruegesa de apenas 23 anos de idade foi a primeira mulher a conquistar o prêmio Bola de Ouro oferecido pela revista France Football. Essa foi a primeira edição da premiação que incluiu uma categoria feminina, e a escolhida para levar o troféu não poderia ser outra.

Foram 15 gols em 9 jogos da Champions League na última temporada pelo Lyon. Uma média digna de Cristiano Ronaldo, que levou a norueguesa a se tornar a maior artilheira da história do torneio europeu. No Campeonato Francês, foram mais 31 gols em 20 jogos, outra marca impressionante para a jovem atacante do Lyon. Ela conquistou tudo o que disputou em 2018, então nada mais merecido do que levar para casa também essa conquista inédita: a primeira mulher a conseguir o feito, já que antes não havia premiação na categoria feminina.

Foto: Getty

"É incrível, é uma grande motivação para seguir trabalhando em  busca de mais títulos. Mas queria terminar com uma coisa para todas as meninas que estão ouvindo: acreditem em vocês mesmas", afirmou Hegerberg no palco.

Só que aí veio o pior momento da cerimônia. Com o prêmio em mãos, Ada Hegerberg viu o DJ francês Martin Solveig que estava ao seu lado fazer um pedido inusitado para que ela dançasse "twerk" (estilo de dança baseado em agachamentos e movimento dos quadris, semelhante ao que costuma ser visto no funk brasileiro). Visivelmente desconfortável, ela disse apenas "não", e se virou para sair do palco.

Foto: Reuters

Um momento que era para ser todo voltado para o talento desta jovem de 23 anos, que impressiona por tudo o que é capaz de fazer dentro de campo, teve seu foco desviado por uma atitude completamente desnecessária do DJ. Nas redes sociais, muitos passaram a falar sobre o comentário inadequado de Martin Solveig, incluindo até o tenista Andy Murray.

"Esse é outro exemplo do machismo ridículo que existe no esporte. Por que mulheres ainda precisam suportar essa asneira? O que eles perguntaram para Mbappé e Modric? Eu imagino que tenha sido algo relacionado a futebol. E para todo mundo que acha que as pessoas estão exagerando e que foi só uma 'brincadeira', não foi. Eu vivi o esporte a minha vida toda e o nível de machismo que elas enfrentam é surreal", opinou o tenista nos stories de seu Instagram.

 

É claro que Modric, vencedor da Bola de Ouro masculina, e Mbappé, vencedor como "melhor jogador sub-21", não ouviram da mesma forma o pedido pela tal dança no palco – o francês recebeu convite para "dançar", e não para "rebolar", como foi o caso da norueguesa. E, claro, nem eles, nem ela deveriam ouvir esse tipo de comentário, porque não há nada relacionado a futebol neles. Faria mais sentido – ainda que também fosse meio "inadequado" dadas as circunstâncias – que o DJ pedisse para Hegerberg fazer embaixadinhas no palco do que para dançar funk. Afinal de contas, por que a jogadora estava ali? Justamente por conta de seu futebol. Esse é o seu talento, seu mérito, e qualquer coisa que não esteja relacionado com isso numa premiação que escolhe os melhores pelo que eles demonstraram em campo é inapropriado.

"Ah, mas era só uma brincadeira". As mulheres estão um pouco cansadas desse tipo de brincadeira que, para elas, não tem a menor graça – como a atleta norueguesa deixou bem claro pela reação que teve no palco quando disseram para ela dançar. E o problema disso é que: acontece repetidas vezes com mulheres. Ninguém diz a um atleta homem para "dar uma voltinha" no palco ou algo do tipo. Essas são perguntas especificamente direcionadas a elas.

Foto: Reuters

Lembro que em 2015 houve uma campanha internacional muito importante chamada #CoverTheAthlete. Na tradução simples, "Cubram o Atleta". No vídeo para divulgar a hashtag, atletas renomados (homens) ouviam as mesmas perguntas que costumam fazer para as mulheres. Os tradicionais "dê uma voltinha", ou "como você faz para manter esse corpo?", ou "como está sua vida amorosa?", etc, quando perguntados aos homens perdem o sentido. A reação deles é bem parecida com a de Hergerberg na premiação: "ahn? como?". E o vídeo termina justamente questionando por que a cobertura dos esportes masculinos foca no esporte, enquanto a dos esportes femininos sempre busca outro foco fora do que as atletas desempenham na modalidade?

O episódio do prêmio fez com que todo mundo falasse do que aconteceu no palco e esquecesse um pouco os feitos que levaram Ada Hegerberg até lá. Os 15 gols que ela fez em 9 jogos de Champions League, os 31 que fez no Campeonato Francês, a habilidade que demonstra dentro de campo, a facilidade para jogar, a personalidade que a tornou hoje protagonista do Lyon, um dos principais clubes de futebol feminino da Europa, e da seleção norueguesa – e tudo isso com apenas 23 anos. São mais de 250 gols marcados na carreira da atacante, que coleciona números impressionantes e foi premiada pela Uefa em 2017 como a melhor jogadora da Europa.

Além disso, ela é uma grande aliada na luta por visibilidade ao futebol feminino e decidiu não mais defender a seleção norueguesa por considerar que a confederação do país não dá às mulheres o mesmo respeito dado aos homens na equipe nacional. Hegerberg reiterou nesta segunda-feira que não irá a Copa do Mundo em 2019 representar seu país.

"Muitas coisas precisam ser feitas para tornar as condições melhores para as mulheres que jogam futebol. É apenas uma questão de respeito ao futebol feminino. Acho que é isso que falta lá (na seleção norueguesa). Às vezes você precisa tomar decisões difíceis por conta dos seus princípios. Eu deixei claro para eles o que não estava funcionando. Não me arrependo da decisão que tomei", reforçou.

O troféu que recebeu nesta segunda-feira é mais do que merecido e é sobre isso que Hegerberg gostaria de ver as manchetes nos jornais hoje. Ela não chegou à Bola de Ouro por ser loira de olhos azuis, nem por suas habilidades dançando. Ela chegou por seu mérito no futebol. Então é justo que seja valorizada por isso – e que o tratamento dado a ela seja igual ao designado a Modric, Mbappé ou qualquer outro jogador, restringindo as perguntas e eventuais "brincadeiras" ao futebol, e não a qualquer outra coisa.

 

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

Mais Dibradoras