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Por que assédio não é mimimi - nem no futebol, nem fora dele

Renata Mendonça

21/11/2018 12h30

Foto: Reprodução TV

Nos últimos dias, circularam na internet imagens do que parecia ser um toque inapropriado de um operador de áudio na repórter Fabíola Andrade, da Globo, enquanto os dois trabalhavam no jogo entre Corinthians e Vasco pelo Campeonato Brasileiro.

As imagens chocavam tanto, que a própria repórter recebeu inúmeras mensagens de torcedores (leia-se homens) enviando o vídeo para ela e alertando para o que havia acontecido. A indignação de quem via essas cenas era imediata, pelo que realmente aparentavam. Apurou-se a situação, outras imagens surgiram e todos os lados da história entenderam que não houve o toque, não houve o assédio.

O "tribunal da internet", o primeiro que julgou as imagens como assediosas condenando a atitude do operador, agora reaparece para julgar as mulheres que "se precipitaram" na situação e dizer: "estão vendo, vocês precisam parar com esse mimimi" – esta que deve ser a onomatopeia mais repetida dos últimos anos.

Então achei válido utilizar esse espaço para fazer um breve histórico (pessoal e compartilhado) sobre o tal "mimimi":

Com 12 anos, pela primeira vez senti um medo instantâneo na rua em plena luz do dia. Eu andava na calçada em direção à escola para treinar vôlei, quando um homem se aproximou e começou a dizer coisas sobre "chupar minha b*****", entre outras impublicáveis. Nem entendi o que ele quis dizer, congelei por alguns segundos, apertei o passo, segui.

A partir dali, o medo nunca mais me deixaria. Andar na rua era assustador. Usar short em dia de calor era um perigo. Caminhar sozinha depois do anoitecer era impensável. Sentir passos me seguindo e uma voz masculina atrás de mim era desesperador. Disputava corridas imaginárias comigo mesma a cada "gostosa" que ouvia sem pedir, a cada toque no cabelo que recebia sem autorizar, ou cada segurada no meu braço que acontecia sem que eu tivesse a chance de reclamar.

Com 18 anos, o primeiro assédio no trabalho. O chefe me pede para sentar do lado dele, acaricia minhas mão, meu cabelo, chega perto da minha perna, eu me levanto e saio para nunca mais voltar.

Com 23, a primeira vez de um sexo forçado, não consentido. Você pega no sono e acorda com o cara em cima de você. Mas não tem forças para tirá-lo dali. Eles acham que o "não" é charme, que é preciso insistir. Que toda mulher diz que não, mas quer.

Com 25, a encoxada no estádio. A disfarçada "foi sem querer, tem muita gente aqui". Com 26, os comentários sobre o corpo, a roupa no trabalho. As "piadas" que eu não achava graça.

Com 27, a primeira vez que eu tive forças para dizer chega. Foi simbólico e foi definitivo. Foi para um homem na rua que achou ter o direito de andar em minha direção e sussurar no meu ouvido palavras que eu não queria ouvir. Virei, mandei tomar no c* bem alto, a adrenalina subiu. Queria de alguma forma fazer com que ele sentisse o que eu sentia com aquilo.

Queria fazer com que, de alguma forma, os homens que leem esse texto entendessem que "mimimi" é como eles chamam tudo isso relatado aqui multiplicado por um milhão de vezes que essas situações se repetem na vida de uma mulher. Que eles se propusessem a compreender que se eles hoje têm "medo" de elogiar uma colega dizendo que ela "está linda" e serem acusados de assédio, eu tenho medo de andar na rua e ser violentada. Eu cresci com esse medo. Por causa desse comportamento deles, que eu aprendi que tinha de aceitar. Só que hoje, ainda bem, eu aprendi que não preciso mais disso. E se a minha segurança de andar sem medo de ter meu corpo violado custar o medo deles de me fazer um elogio e serem julgados por assédio, acho que a conta está paga e está barata.

O que para os homens é "mimimi", para as mulheres é o motivo que castra sua liberdade no momento em que nascem com uma vagina entre as pernas. É o que vai aprisioná-las no medo para o resto de suas vidas. Medo de andar na rua e ser estuprada, de denunciar assédio do chefe e ser demitida, de responder o que pensa para o marido e ser agredida. Só que agora, depois de muito tempo, nós estamos nos libertando do medo, do silêncio e estamos em busca daquilo que deveria ser premissa básica da humanidade: respeito, igualdade.

Não é que "agora tudo é assédio". É que sempre foi, sempre aconteceu, mas agora resolvemos falar. É que no vídeo divulgado, havia muitas características de assédio, e por isso ele foi repudiado. "Mas vocês destruíram a vida de um inocente" – bem, não foram as mulheres que destruíram. Foi o tribunal das redes sociais, os julgamentos que vieram antes mesmo da própria repórter tomar conhecimento do que havia acontecido. Ele não mereceu, nem merece tudo isso. Ela também não. Aliás, ninguém merece essa condenação e linchamento virtual – ninguém. Porque todo mundo erra e deveria ter a chance de aprender. E se estamos falando de um caso que não aconteceu, não podemos esquecer os outros milhares que acontecem todos os dias.

Então é preciso também lembrar que há muitas vidas destruídas por causa dessa lógica que naturaliza e minimiza o assédio e a violência contra a mulher – e reduz tudo em mimimi. As meninas que foram abusadas na infância e tiveram suas vidas destruídas parcialmente por um trauma que não se apaga. As vítimas de estupro ou de violência doméstica também tiveram suas vidas destruídas pelos seus agressores. E todas nós nascemos já tendo que nos reconstruir para reagir a essa lógica de sociedade que nos agride e mata todos os dias.

Até um tempo atrás, essas acusações nem eram levadas em consideração. Quantos casos de violência doméstica chegaram à delegacia e terminaram ali porque o delegado diz: ah, mas você tem certeza que você vai destruir a vida dele por causa de uma briga à toa? Quantos casos de abuso e assédio acontecem no transporte público e terminam com os seguranças dizendo: mas também, olha a roupa que você estava usando. Se agora as acusações estão surgindo, reverberando e fortalecendo um movimento de mulheres contra todos esses abusos, não dá para invalidar tudo isso por conta de um caso mal interpretado. Esse é, literalmente, um em um milhão.

Vamos pegar alguns casos que aconteceram no esporte como exemplo. A nadadora Joanna Maranhão sofreu abuso sexual cometido por seu técnico quando ela tinha 9 anos de idade, e acabou processada por ele por difamação. As ginastas americanas só se viram ouvidas depois de centenas delas virem a público para denunciarem o médico Larry Nassar também por abuso. No Brasil, mais de 40 meninos foram vítimas do técnico Fernando de Carvalho Lopes e até hoje o inquérito segue parado, sem conclusão, e a máxima pena que ele pegou no Tribunal de Justiça Desportiva foram 4 anos afastado do esporte. Há os inúmeros casos de repórteres sendo beijadas quando estão trabalhando em transmissões ao vivo. Outras que são encoxadas "despretensiosamente" em zonas mistas.

Fora do esporte, os casos se repetem todos os dias. No Brasil, uma mulher é estuprada a cada 11 MINUTOS, segundo os dados mais recentes. São 25 casos de violência doméstica por hora. Os casos mais corriqueiros de assédio, infelizmente, não são contabilizados, mas para pegar um exemplo do metrô de São Paulo, foram 152 mulheres nos seis primeiros meses deste ano que denunciaram toques e encoxadas indevidas no transporte público, uma média de quase 1 por dia – isso das que chegam a denunciar.

Então vamos refletir: quantos homens são injustamente acusados por assédio? Quantas mulheres efetivamente sofrem assédio todos os dias? Talvez o "mimimi" de tudo isso esteja do outro lado.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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