Topo
Dibradoras

Dibradoras

De véu, grinalda e chuteira: a noiva que levou o futebol até para o altar

Renata Mendonça

17/11/2018 04h03

Karina com Alice Dias, Giselle Cordiolli, Isabella Fiorin, Amanda Strumiello, Cristina Martins, Larissa Leite, Ana Cristina Basile e, claro, o noivo (Foto: 4play imagens)

O casamento dos sonhos para muita gente tem um cenário ideal, os melhores amigos junto, uma música legal…para Karina Santos, além de tudo isso, precisava também ter futebol. Apaixonada pelo esporte desde criança, ela passou a vida jogando e não poderia deixar a bola de fora desse momento tão importante da sua vida. Por isso, levou tudo isso para o altar – quase que literalmente.

No dia 22 de setembro, quando disse sim ao marido – e goleiro de seu time – Ricardo, Karina fez questão de reservar um tempinho da festa para uma celebração especial com as amigas do futebol. O grupo que a acolheu há um ano, quando ela estava procurando um time para voltar a jogar com frequência, virou praticamente uma família, e a noiva fez questão de registrar o momento da maneira que elas mais gostam de estar: com a chuteira e a bola nos pés.

"A gente criou um entrosamento muito grande juntas, jogando toda semana. A gente sempre toma uma cerveja depois do jogo, então ficamos muito unidas. Entrando no Pelado Real (time onde joga hoje), eu não tinha noção de que o futebol me traria tantas amizades, que a gente fosse cúmplice em tantas coisas.O futebol me trouxe essas coisas que eu vou carregar pra vida, então nada mais justo do que registrar tudo isso no meu casamento", contou Karina às dibradoras.

(Foto: 4play imagens)

A ideia da foto veio num grupo de whatsapp com as "peladeiras" convidadas, que sugeriram fazer algo para registrar a "turma do futebol" no casamento. Aí a própria Karina pediu para que elas levassem a bola e as chuteiras. Ricardo, o noivo, já estava acostumado a jogar no gol junto com elas, então entrou na brincadeira e levou suas luvas. E aí o time ficou completo.

"Eu conversei com os fotógrafos para eles irem até aquela área reservada para tirar a foto. Aí foi o maior processo para colocar a chuteira, com vestido, véu e tudo mais. As meninas que colocaram para mim", conta, aos risos.

A pose escolhida foi a que elas sempre fazem depois dos jogos. E após a foto, também sobrou tempo para brincar um pouquinho com a bola. "A gente trocou uns passes, fiz uma brincadeira com o Ricardo, dei rolinho nele, enfim, fizemos a festa", relatou.


Quem ficou perplexo com tudo isso foram os convidados do casamento, que ficaram um tempo sem entender nada ao ver a noiva de chuteira. "Todo mundo vinha me falar: uma noiva de chuteiras? Isso eu nunca vi", conta, orgulhosa.

'Não é só futebol'

Há um clichê que todos os apaixonados por futebol repetem – e que muitos não apaixonados por esse esporte não entendem. Mas no dia do casamento, Karina sentiu isso bem de perto. Ao calçarem as chuteiras e colocarem a bola nos pés mesmo vestidas "in gala", ela e suas companheiras de time esqueceram as formalidades da ocasião e foram elas mesmas: as mães, as mais jovens, as que nunca tinham jogado, as que chegaram já cheias de habilidade, todas tinham chegado até ali pelo futebol que as unia e esse foi o ponto alto da celebração naquele momento.

Tem muitas mulheres mais velhas, com família e tudo mais, mas a gente se entrosou muito bem. E eu tenho certeza de que eu vou levar isso para a vida. Foi um momento incrível para lembrar para sempre. Nenhuma foto representa tanto o que eu sou como essa", resumiu Karina.

(Foto: 4play imagens)

O futebol entrou na vida de Karina quando ela ainda era criança e jogava na escola com os irmãos. Fez escolinha, disputou campeonatos da cidade (ela morava em São Paulo) e, mesmo na faculdade, não queria abandonar o esporte que a formou. Só que não tinha mais vaga no time universitário, então ela foi tentando buscar em outras modalidades a paixão que sentia pelo futebol.

"Só que, claro, não deu certo né. E aí eu coloquei na cabeça que tinha que achar um lugar pra jogar. Poderia ser com homens, com mulheres, o que fosse, mas eu precisava voltar a jogar. Foi aí que eu descobri o Pelado Real", contou.

Foto: Arquivo Pessoal

Pelado Real é um clube de futebol amador que oferece treinos e jogos para mulheres em várias regiões de São Paulo. Karina descobriu o projeto e começou a frequentar os treinos em agosto de 2017 todas as noites de quarta-feira.

"Eu jogava salão, não jogava society, e estava há muito tempo parada, então leva um tempo para pegar o ritmo. Mas quando eu cheguei, todo mundo me recebeu muito bem, me ajudaram muito. Foi isso que trouxe a união desse time, a gente toma uma cerveja depois do jogo. Costumamos dizer que somos o 'Pelado da Resenha"', brinca.

De tudo isso, veio a foto tirada no casamento de Karina em setembro, que é apenas um gesto simbólico de agradecimento a tudo que ela recebeu do futebol e do seu novo time. "A gente pensa: é só uma foto. Mas ela tem um significado importante. As pessoas olham e falam: que coisa sensacional. É algo muito importante para mim e foi muito legal poder marcar isso num momento tão especial da minha vida", concluiu. 

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

Mais Dibradoras