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A experiência da Copa ‘sozinha’

Renata Mendonça

25/06/2018 07h51

Minha Copa sozinha teve pelo menos mais seis novos amigos

Não era para ser notícia, nem pra ser algo "diferente". Era pra ser comum, uma viagem como tantas outras, como tantos outros fazem, sozinhos, em uma Copa do Mundo. Mas viajar sozinha, infelizmente, ainda é algo que envolve algumas preocupações extras para a mulher que decide fazer isso e alguns olhares tortos de quem acha que ela não deveria fazer isso. E viajar sozinha num ambiente tão masculino, como a Copa do Mundo, pode parecer uma experiência ainda mais "ousada".

Só que tem uma coisa que eu quase me esqueci em meio ao planejamento minucioso dessa viagem entre os medos de assédio e abuso que eu via acontecendo na Rússia de longe e a preocupação de garantir uma experiência segura: quem viaja com o futebol, nunca está sozinho. Pode ser no bar ou no estádio vendo o jogo, na praça festejando com a torcida ou até mesmo andando na rua com a camisa de um time – o futebol conecta as pessoas de um jeito tão único e tão natural que, de repente, nos vemos melhores amigos de desconhecidos.

Cheguei a Moscou no sábado e no mesmo dia peguei o trem para Nizhny Novgorod para acompanha Inglaterra x Panamá no domingo. Minha primeira preocupação era a de chegar sozinha na cidade desconhecida à noite e andar por ela sem companhia, sem saber falar a língua local. Tomei alguns cuidados diante disso, como viajar de calça jeans (apesar do calor), evitar pegar táxi (foi o conselho de amigas e amigos que já estavam na Rússia para não fazer isso sozinha) e também evitar as ruas pouco movimentadas.

Quem é mulher sabe os rituais que precisamos fazer todo dia antes de sair de casa. A roupa não deveria importar (e não importa), o trajeto também não, porque mesmo que alguma coisa aconteça, a culpa nunca vai ser nossa e ponto. Mas são cuidados que a gente aprendeu a ter para calar (ou ao menos acalmar) nossos medos.

Então cheguei, peguei o metrô e, na saída, já estava um pouco perdida quando parei pra ver o mapa no celular e uma russa se aproximou gentilmente: "você precisa de ajuda?", perguntou. Sim, muito, pensei e respondi ao mesmo tempo. Ela pegou o meu celular, olhou onde eu queria ir e foi me levando na direção correta apontando o que eu teria de fazer a partir dali. E a gente achando que era só brasileiro que fazia de tudo pra ajudar.

Cheguei ao hostel, entrei no quarto e veio a primeira conexão. Ali estava Karla, uma panamenha que mora na Inglaterra e estava fazendo um bate-volta na Rússia para ver de perto a histórica participação de seu país na Copa do Mundo. Falamos sobre futebol, sobre a ideia que me moveu até ali e sobre o que faríamos naquela noite. Ela tinha receio de sair sozinha também, e os amigos estavam hospedados mais longe dali, então nos juntamos nessa aventura porque duas juntas sempre andam melhor do que uma só.

Paramos para comer em um restaurante com o desafio de nos fazer entender pelo garçom, que usava o Google tradutor pra se comunicar conosco. Achamos que tínhamos sido bem-sucedidas na missão, até nosso kebab chegar assim:

Não tinha o que fazer se não rir e tentar montar nos mesas o kebab na mão. A estratégia deu semi-certo, mas logo viramos o centro das atenções do restaurante – talvez porque estavam todos invejando nosso prato diferentão? Ou porque estavam se perguntando como a gente tinha conseguido essa proeza em um restaurante que vendia apenas kebab? Confesso que eu mesma me perguntava a mesma coisa, até que apareceu uma mulher com a câmera do celular apontada pra nós filmando nossa confusão. Estranho, mas ok.

Mais estranho ainda foi o garçom enviando a garçonete pra nossa mesa com mensagens escritas no Google tradutor pra nos dizer que éramos muito bonitas, que ele gostaria que voltássemos mais vezes e qual era nosso nome e de onde vínhamos e etc, etc. A gente só queria comer e, em dado momento, rejeitamos o celular com o Google tradutor porque aquela conversa, que já tinha começado esquisita, estava ficando ainda mais desagradável.

Saímos de lá e o destino foi a rua principal de Nizhny, uma rua de pedestres cheia de bares e tomada por torcedores durante a Copa. No caminho, notamos que passávamos por uma rua bem escura e apertamos o passo comentando o quanto isso nos trazia a ideia de medo. Não importa se nos disserem que esse é o lugar mais seguro do mundo, uma rua escura sempre nos lembra o quanto somos vulneráveis – não é uma questão de medo de assalto, é uma questão de medo de estupro.

Sobrevivemos e então chegamos à tal rua, linda que só ela, com ares históricos de antiguidade, cheia de gente de todos os lugares do mundo. Aí vem o torcedor bêbado e para na nossa frente pra impedir nossa passagem. A gente anda pro lado esquerdo, ele anda também. Tentamos a direita, ele bloqueia ali também. Que engraçado né? Não. Andamos mais rápido e finalmente nos desvencilharmos dele.

Foi então que encontramos os amigos panamenhos de Karla e vivemos um daqueles momentos incríveis que só o futebol proporciona. Todos cantando noite adentro, ingleses dançando com panamenhos, panamenhos cantando com russos, e tudo era uma festa só. Às 2h30 da manhã, começava a amanhecer em Nizhny (sim, lá amanhece esse horário no verão) e voltamos pro hostel felizes pela experiência compartilhada e também pelo fato de já ser dia é isso significar que a rua escura do caminho agora estaria iluminada pelo sol.

Na manhã seguinte, conheci Nalini, que também estava no nosso quarto e, assim como eu, não era nem panamenha, nem inglesa, mas que era apaixonada por futebol. Ela viajou de Singapura para a Rússia para viver seu sonho de Copa do Mundo, algo que sempre acompanhou à distância e sempre quis viver de perto. "Em Singapura, nós não temos um time disputando a Copa, mas somos completamente apaixonados por futebol. Eu lembro de ficar vidrada na TV vendo os jogos com 10 anos de idade", contou.

E agora quem achava que estava viajando sozinha já tinha duas amigas como companhia. Saímos juntas para o estádio e, no almoço, falamos sobre as dificuldades enfrentadas no país da Copa. Nalini contou que pegou um táxi, e o motorista começou a dizer coisas pra ela no meio da corrida, que tinha uma beleza que encantava, que isso e aquilo, e ela foi ficando um pouco intimidada – estava no carro do desconhecido, afinal. Até que ele a deixou no destino, ufa, e pediu seu celular pra voltarem a se falar. Ela não passou e nunca mais pegou táxi ali para evitar esse tipo de situação.

As duas singapurianas apaixonadas por futebol

Há uma semana na Rússia, a torcedora de Singapura já havia passado por várias situações de assédio e constrangimento e tinha até desistido de ir à Fan Fest à noite sozinha por medo de voltar na rua escura. São aquelas restrições que acabamos fazendo com a nossa liberdade. Mesmo assim, ela estava realizada por estar vivendo o que sempre sonhou: "Eu não consegui ir na Copa do Brasil em 2014, então fiz questão de vir nessa, porque no Catar vai ser ainda pior (no aspecto de ser mulher no Mundial)".

Fomos para o jogo e esse foi o único momento em que nos separamos: cada uma foi pro seu lugar e ali mais uma conexão, desta vez pela camiseta. O russo que estava do meu lado na arquibancada reconheceu o símbolo da Chapecoense e puxou papo: "Brasil?" Brasil. Aliás, esse respeito mundial pela Chapecoense foi uma coisa linda que descobri ao usar a camisa do clube num jogo da Copa. Diversos torcedores das mais variadas nacionalidades me paravam para demonstrar afeto pelo clube brasileiro.

Aí, entre um gol e outro do massacre da Inglaterra em cima do Panamá, falamos sobre a seleção, Neymar, o trabalho de Tite, o caos na seleção argentina, etc, etc. Em nenhum momento o amigo russo me disse: "nossa, mas você entende de futebol né?", nem "difícil achar mulher que goste de futebol assim". Ele simplesmente deixou o papo fluir sem me distinguir como "homem" ou "mulher": apenas viu ali um(a) igual, apaixonada por futebol como ele.

Então vejo o histórico gol do Panamá, que tinha que vir mesmo porque aquela torcida merecia celebrar naquele dia. Não interessa que era apenas o solitário de uma goleada de 6 do time adversário, porque os panamenhos já estavam felizes apenas por fazerem parte da Copa, então imagina agora com um gol pra extravasar. Comemoraram daí em diante como se não houvesse amanhã, e deixamos o estádio embalados pelos gritos dos fanáticos e fanáticas do país estreante no Mundial.

 

Saindo do estádio, passamos no shopping para comer e dividimos a mesa do restaurante cheio com um inglês feliz pela goleada, mas não suficientemente empolgado – já está anestesiado, coitado, das tantas vezes que se iludiu com a seleção britânica. Estávamos eu, brasileiras, e duas novas amigas de Singapura e o britânico vendo Japão x Senegal, nada mais Copa do Mundo do que isso.

"Nunca vou perdoar vocês por aquele jogo em 2002", ele me disse. "Poxa, melhor jogo da Copa aquele, vai?", respondi rindo. E ele, naturalmente, não concordou, porque foi muito dolorida a derrota de virada para a seleção que depois viria a ser campeã. "Eu tinha certeza que naquele ano a gente iria ganhar a Copa", lamentou o britânico.

Seguimos falando sobre a nova seleção brasileira, já não mais tão dependente de Neymar, a insegurança dos ingleses quanto à sua seleção, e ele me perguntou também sobre os campeonatos no Brasil, achou nosso calendário cheio demais e ainda disse que acredita no hexa nessa Copa.

Também não se espantou com o conhecimento de futebol das três mulheres ali, nem se surpreendeu com o fato de estarmos "sozinhas" num jogo de Copa do Mundo. Tudo isso é pra ser natural, é pra ser regra, e não a exceção.

O dia terminou na Fan Fest, quando me dei conta de que em menos de 24h, eu já havia me conectado com mais de dez pessoas diferentes por causa do futebol. Entre os amigos panamenhos e as singapurianas, brindamos a alegria de poder viver uma Copa como ela é: cheia de surpresas agradáveis e boas histórias.

Os medos existem em quaisquer circunstâncias (ainda mais diante dos fatos que já aconteceram com mulheres e colegas nossas nesse Mundial), mas não dá para permitir que eles limitem nossos caminhos. Seguiremos ~dibrando e torcendo para que um dia essas aventuras futebolísticas possam acontecer sem tantos receios e cuidados – que nossa preocupação seja apenas com o placar do jogo.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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