Topo
Dibradoras

Dibradoras

Ex-capitã da seleção: o que o Brasil precisa mudar contra a Costa Rica

Roberta Nina

20/06/2018 13h25

Brasil estreou contra a Suíça no Mundial realizado na Rússia. (Foto: CBF)

O Brasil empatou com a Suíça pelo primeiro jogo da Copa do Mundo na Rússia, realizado no último domingo (17/6). Uma das iniciativas do blog dibradoras é trazer análises feitas por mulheres sobre os jogos da Copa do Mundo. É bem provável que a cobertura deste Mundial entre para a história por conta da grande presença feminina em debates esportivos, principalmente nas emissoras de TV.

As narrações das mulheres no canal Fox Sports 2, os comentários feitos por elas nas mesas de debates, a participação de atletas do futebol feminino nas coberturas do torneio, as reportagens de campo e extra-campo só comprovam que cada vez mais o jornalismo esportivo pode ficar mais democrático daqui pra frente.

Juliana Cabra, ex-jogadora do Brasil e atual comentarista da ESPN Brasil (Foto: Reprodução/ESPN)

Pensando nisso, convidamos Juliana Cabral, ex-capitã da seleção brasileira futebol, para analisar a postura do Brasil em seu jogo de estreia, elencar os pontos fortes e fracos da equipe brasileira, as polêmicas da arbitragem, o uso do VAR e o que podemos esperar para o próximo confronto que será realizado em São Petesburgo, nesta sexta-feira (22/6).

É de suma importância abrir espaços para que – assim como ocorre com os homens – as ex-jogadoras possam compor as equipes de comentaristas durante as transmissões de jogos. Bárbara, goleira titular da seleção brasileira, participou da transmissão 100% feminina no último domingo, pelo Fox Sports 2, comentando a estreia do Brasil na competição contra a Suíça (saiba mais aqui).

Vanessa Riche, Isabelly Morais e a goleira Bárbara fizeram a transmissão de Brasil x Suiça pela Fox Sports 2 (Foto: Fox Sports/Divulgação)

Além da visão de atleta, de quem defendeu a seleção brasileira e foi capitã da equipe entre 2001 e 2004, Juliana também é comentarista da ESPN Brasil. Durante sua trajetória nos gramados, a ex-jogadora conquistou diversos títulos, entre eles, o bicampeonato Sul-Americano (em 1998 e em 2003), o Pan-Americano em 2003 e participou de dois Jogos Olímpicos: em 2000 em Sidney e em 2004, em Atenas, onde foi medalhista de prata com o grupo comandado por Renê Simões.

Ju Cabral, medalhista olímpica em Atenas, 2004 (Foto: Museu do Futebol/Divulgação)

Confira abaixo as análises de Juliana Cabral:

Empate contra a Suíça.

O empate contra a Suíça diz muito sobre o desempenho da seleção brasileira. Era o adversário mais difícil na fase de grupos, porém o Brasil estava muito abaixo do que pode render. Começou o jogo com muita dificuldade na saída de bola por conta da marcação suíça, bloqueando bem os lados e marcando bem a frente. A única opção era o Coutinho ajudar nessa saída de bola e foi isso que ele fez.

Com qualidade, o Brasil começou a transpor dessa primeira dificuldade. O problema é que era um Brasil que jogava muito pelo lado esquerdo – claro que por ali há muita habilidade com Neymar, Coutinho e Marcelo – mas o time só atacava por ali, iniciava as jogadas e terminava sempre por ali.

Imagem: REUTERS/Marko Djurica

No início criou boas oportunidades pelo lado esquerdo, mas tinha o William pelo lado direito isolado – claro que as associações por ali são diferentes com Danilo e Paulinho. Paulinho é um cara que infiltra muito e participa muito mais da finalização da jogada do que propriamente da construção da jogada devido às suas características. E o que acabou acontecendo foi que o William ficou isolado por aquele lado.

Faltou pro Brasil um pouco mais de paciência pra fazer essa circulação de bola de um lado pro outro pra desequilibrar essa marcação forte que fazia a seleção da Suíça. Toda estreia é complicada mesmo, ainda mais contra uma seleção que é muito forte e em boa parte do jogo conseguiu controlar muito bem os espaços do Brasil.

O gol brasileiro e a postura do time com a vantagem no placar

Mesmo com toda marcação suíça, o Brasil foi criando oportunidades e abriu o placar num golaço do Coutinho que é característico dele, mas a partir daí vimos uma seleção que preferiu "dar a bola pra Suiça". Com isso, o Brasil correu poucos riscos, o goleiro Alisson participou pouco do jogo dos 90 minutos, mas foi uma seleção que produziu muito pouco dessa forma e não conseguiu contra-atacar.

Foto: REUTERS/Marko Djurica

No segundo tempo, sofre um gol muito cedo e, na minha visão, foi falta no Miranda porque existe por ali o contato e o empurrão. Mas é uma seleção que consegue produzir muito mais. No finalzinho ainda teve boas oportunidades com o Firmino e com o Fernandinho, mas o desempenho foi muito abaixo.

Neymar em campo

O Neymar estava muito abaixo do que pode render, freando muito o jogo e é obvio que quando ele pega a bola muitos jogadores estão em cima, inclusive em superioridade numérica e até mesmo pelo lado esquerdo, onde a Suíça conseguiu encaixar muito bem a marcação no segundo tempo.

Os suíços controlaram bem os espaços com uma marcação muito agressiva e fisicamente muito forte.

Foto: Damir Sagolj/Reuters

 

O destaque brasileiro

Vale destacar a bela partida que fez o Casemiro, jogando muito bem e dando pouco espaço ao adversário. Cumpriu muito bem o papel daquele homem entre linhas. O Dzemaili participou pouco no primeiro tempo porque o Casemiro jogou muito, participando das coberturas, de cuidar de espaços deixados muitas vezes na primeira linha defensiva.

Foto: Copyright Sebastian Frej/Pro Sports Images Ltd

Compreensível a sua substituição no segundo tempo, afinal, um jogo tão duro como estava e o Casemiro já com um cartão amarelo, acho que o Tite tomou uma boa decisão colocando o Fernandinho que faz a mesma função e também é um jogador de muita qualidade.

Arbitragem

Achei que foi falta no Miranda, tem um contato pelas costas que não pode, não é permitido. Foi falta. Não vejo o Miranda mal posicionado, a seleção brasileira marca de forma mista o escanteio. Alguns jogadores cuidando de uma marcação por zona, outros três fazendo uma marcação individual, de acompanhamento de adversário. Acho sim que existe um espaço grande entre o Thiago Silva e o Miranda, porém independente de qualquer coisa, foi falta no Miranda.

Não vi pênalti no Gabriel Jesus. Na hora fiquei na dúvida, mas revendo o lance não sei se era suficiente pra derrubá-lo. Então fico na dúvida, mas acredito que não marcaria.

Foto: Wander Roberto/Gazeta Press

A utilização do VAR

Sobre a utilização do VAR, eu sou a favor. Acho que essa tecnologia pode auxiliar o árbitro que, às vezes, não tem a visão por todos os ângulos e eu acredito que tem que ser utilizada. Pensando como jogadora, imagina você trabalhar um ciclo de Copa do Mundo, você ter toda uma preparação por anos e, enfim você acabar um jogo desclassificado, ou perdendo uma final com um gol irregular ou por causa de um pênalti não dado? Então eu sou a favor do VAR.

Em relação à CBF, acho uma grande besteira, não tem que reclamar de coisa nenhuma. Não é um grande exemplo, teve a oportunidade de se colocar o VAR aqui dentro do país e jogou tudo nas costas dos clubes. E ali o árbitro interpretou que, na visão dele não foi falta, o VAR validou o gol – que também certamente interpretou que não foi falta – e bola que segue. A seleção não perdeu por conta do gol da Suíça que, na minha visão, houve a falta. Perdeu por uma série de outras coisas.

Foto: DARREN STAPLES/REUTERS

Tem tantas coisas que a CBF precisa pensar, principalmente pelo futebol que organiza dentro de seu país e vai querer reclamar de VAR que nem ela mesma coloca dentro do país dela?

Próximo desafio: Costa Rica

Contra a Costa Rica, acredito que serão posturas diferentes das que vimos contra a Suíça. Imagino que a Costa Rica não vá se expor contra a seleção brasileira, vai fazer a conhecida linha de 5 que, por enquanto foi a única que apresentou esse modelo durante o jogo todo. E aí o Brasil vai ter que ter muita paciência pra circular a bola e buscar infiltração.

A linha de 5 da Costa Rica não é tão sólida, os últimos jogos mostraram isso. Com essa marcação, certamente a Costa Rica vem pra jogar por uma bola, pra tentar explorar os espaços que a seleção brasileira pode deixar, já que precisa propor o jogo pra somar os três pontos que será de suma importância.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

Mais Dibradoras