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Perdemos a tenista, mas jamais a sua história

Renata Mendonça

08/06/2018 20h33

Até não muito tempo atrás, os únicos tenistas brasileiros de que eu tinha ouvido falar eram Fernando Meligeni e Gustavo Kuerten. Meligeni por sua raça em quadra em uma final de Pan Americano quando ele finalmente conquistou o ouro, e Guga por sua história vitoriosa em Roland Garros e o drama após a lesão que o tirou das quadras.

Eu até já tinha escutado uma vez ou outra um nome feminino de passagem, Maria Esther Bueno, mas muito pouco se falava sobre os feitos dela. Até que um dia fui pesquisar sobre as mulheres que fizeram história no esporte brasileiro e, apesar de saber que encontraria o nome dela nessa lista, não imaginava o tamanho do currículo que a acompanhava.

(Foto: William Volcov/Brazil Photo Press/Folhapress)

Foram 589 títulos conquistados na carreira. Quinhentos e oitenta e nove. Destes, 19 títulos são de Grand Slams, as principais competições do tênis. Na década de 1960, ela colecionou conquistas nas disputas de simples e de duplas e colocou de vez seu nome na história do tênis mundial.

Ainda assim, é provável que se fizéssemos uma pesquisa nas ruas, talvez menos da metade das pessoas saberiam quem foi esse fenômeno do esporte no país. A gente ouve muito pouco falar dos feitos dessa tenista e da importância deles, principalmente considerando que tudo o que ela conquistou foi num contexto em que mulheres ainda eram proibidas de praticar alguns esportes no Brasil.

Maria Esther Bueno, vencedora do torneio de Wimblebon na Inglaterra em 1959. (Foto: Folhapress)

"Mulher no esporte sempre teve, mas nunca com o destaque que era dado aos homens. Depois das conquistas que eu consegui, muitas mulheres se sobressaíram", disse a atleta em uma entrevista antiga à Agência Brasil. "Acho que abri um caminho, principalmente no tênis, que é o meu esporte, na América Latina toda."

E abriu mesmo. Em uma época que esporte era apenas coisa de homem e que o lugar da mulher era apenas a cozinha e o tanque (como muitas vezes ainda repetem por aí), Maria Esther deixou sua casa e foi viajar o mundo disputando torneios e conquistando medalhas.

(Foto: Arquivo Estadão/Conteúdo AE)

"Maria Esther ocupa um espaço enorme na história do tênis Brasileiro. Sua ousadia, seu pioneirismo, sua coragem de enfrentar os desafios do circuito internacional, praticando um esporte amador e pouco difundido no Brasil, resultaram na conquista de inúmeros títulos e recordes", disse às dibradoras a ex-tenista Patrícia Medrado, que veio na geração seguinte, atuando nos anos 1970 e 1980.

Ousadia é uma excelente característica para definir Maria Esther. Como a ousadia que teve ao disputar um campeonato após ter levado uma mordida de cachorro na mão. Com os dedos rasgados, jogou o Pan-Americano de 1963 com uma proteção e terminou o campeonato com um ouro no individual e duas pratas nas duplas (feminina e mista). Ousada também foi quando conquistou o título do US Open vencendo a decisão final de 1964 contra a americana Carole Caldwell Graebner em apenas 19 minutos.

Começando a jogar tênis aos 11 anos de idade no Clube Tietê em Sao Paulo, Maria Esther Bueno conquistou seu primeiro título brasileiro juvenil aos 14 e daí em diante não parou mais. Aos 20, faturou seu primeiro Grand Slam em Wimbledon, um tipo de quadra com gramado em que nunca havia jogado. "No Brasil, nós só tínhamos quadra de saibro, nunca tinha tido a chance de jogar na grama. Foi a conquista mais inesperada, uma grata surpresa".

(Foto: Arquivo Estadão/Conteúdo AE)

Foi declarada campeã mundial por suas conquistas ao longo da temporada em 1959, 1960, 1964 e 1966. A primeira brasileira a integrar o International Tennis Hall of Fame, em 1978, e chegou a ganhar uma estátua de cera no museu "Madame Tussauds", muito famoso em Londres.

Ainda assim, mesmo diante de todas essas conquistas, é possível que muita gente tenha ouvido a notícia da internação ou até mesmo da morte de Maria Esther Bueno e não tenha se dado conta do tamanho dessa perda para o esporte brasileiro.

(Foto: Fábio Braga/Folhapress)

"Sua história é inspiradora principalmente por ser mulher e ter jogado numa época onde no Brasil, em termos de esporte , só o futebol era conhecido. Ela traz a imagem de uma mulher vencedora e vanguardista", observou Patrícia Medrado.

Dentre as tantas outras tenistas e os tantos outros tenistas que surgiram depois dela, nenhum outro chegou perto de ganhar a mesma quantidade de títulos que ela ganhou – e dificilmente chegará.

A perda é irreparável, mas como bem disse Medrado, "perdemos a tenista – jamais a sua história".

Que essa história agora seja repetida de geração em geração para que nunca se esqueçam a lendária maior tenista que já tivemos, Maria Esther Bueno.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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