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Julgada pelo "crime" de torcer, iraniana foi morta pelo machismo

Renata Mendonça

11/09/2019 19h24

Foto: Getty Images

Uma torcedora de um clube de futebol do Irã colocou fogo em si mesma após o julgamento que poderia determinar sua prisão pela tentativa de ver um jogo do seu time no estádio. Seu "crime" foi esse: vestir-se de homem para conseguir fazer o que mais amava – torcer. As autoridades descobriram que era uma mulher disfarçada e deram ordem de prisão a Sahar Khodayari. Em 2019, uma mulher foi presa pelo simples fato de querer ocupar uma arquibancada.

Ela ficou alguns dias presa, depois aguardou meses pelo julgamento até que, no dia dele, soube que a decisão sobre seu futuro seria adiada. E soube também que poderia pegar até 2 anos de prisão. Ali mesmo, colocou fogo em si mesma. Um protesto pelo seu direito de ir e vir. Pelo seu direito de ser e existir – também no estádio de futebol. Esse caso tão trágico e tão simbólico ficará marcado para sempre para nos lembrar que o machismo mata. Não foi o fogo que tirou a vida de Sahar Khodayari. A opressão e a ausência de liberdade foram as causas de sua morte.

Vai ter quem apareça para dizer que o julgamento da torcedora não foi por ter ido ao estádio, mas sim por ter aparecido em público sem usar o tradicional hijab. Mas ela só apareceu assim porque tentou se disfarçar de homem para ir ao jogo. E só tentou se disfarçar porque, se fosse como mulher que é, seria proibida de entrar. "Ah, mas ela desafiou a lei". Sim. Porque infelizmente foi isso que mulheres sempre precisaram fazer para conseguir os direitos mais básicos. Se não tivéssemos desafiado a lei, até hoje não poderíamos votar, não poderíamos trabalhar, nem poderíamos viajar sem autorização de um marido. Desafiar a lei nesse caso significa resistir, quando tentam te impedir de existir em determinados lugares. Um dia, essa proibição absurda finalmente cairá – e isso só vai acontecer por causa da luta dessas mulheres .

Foto: AFP

Conhecida como "blue girl" representando as cores do seu time, a jovem virou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais do mundo inteiro em uma mobilização histórica e única de homens e mulheres para pressionar o Irã a acabar com a proibição das mulheres no estádio. Outros países de cultura islâmica já fizeram isso, e até mesmo em terras iranianas isso aconteceu em 2018, durante a Copa do Mundo da Rússia, quando telões foram montados em estádios e permitiu-se que as mulheres também ocupassem as arquibancadas para assistir aos jogos da seleção. A Fifa é ainda muito discreta nas suas manifestações e nunca ameaçou o Irã de qualquer punição mais severa por uma discriminação desse nível em pleno século 21.

"Soubemos das notícias muito tristes do Irã e lamentamos profundamente esta tragédia. A Fifa transmite as suas condolências à família e aos amigos de Sahar. Reiteramos nossas convocações às autoridades iranianas para que garantam a liberdade e a segurança de todas as mulheres que participam de uma luta legítima para pôr fim à proibição dos estádios", afirmou pelo Twitter. 

Alguém consegue imaginar um país proibindo negros de entrarem nos estádios em pleno 2019? Se o racismo passou a ser combatido há algum tempo pela entidade máxima do futebol – com campanhas e punições efetivas para qualquer manifestação racista nos estádios -, está na hora de ela também olhar para o machismo que ainda vigora como "lei" para banir as mulheres do estádios, como é o caso do Irã.

Clubes ao redor do mundo se manifestaram em solidariedade à torcedora. A Roma mudou as cores do seu escudo para azul e escreveu no Twitter: "Hoje nosso coração sangra azul por Sahar Khodayari. A beleza do jogo é nos unir, não nos dividir. Já é hora de todo mundo no Irã poder curtir uma partida de futebol junto". O Barcelona também se posicionou pela mesma rede social: "O futebol é um jogo para todos – homens E mulheres, a todo mundo deveria poder curtir os jogos junto nos estádios".

Chega a ser surreal que, a essa altura do campeonato, ainda precisemos lutar por direitos tão básicos como ir a um jogo de futebol. Mas a morte dessa torcedora iraniana não pode ser em vão. É mais do que urgente que o governo iraniano acabe com a proibição da presença feminina em estádios. É imprescindível que a Fifa e toda a comunidade do futebol se una em torno dessa causa.

Sobre as autoras

Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Renata Mendonça é apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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