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Tetracampeãs: Por que os EUA são tão imbatíveis no futebol feminino?

Renata Mendonça

08/07/2019 04h00

Foto: U.S. Soccer

Os Estados Unidos são campeões do mundo mais uma vez. Em oito edições da Copa do Mundo feminina desde 1991, as americanas levantaram o caneco quatro vezes – essa, porém, é a primeira vez que fazem isso consecutivamente. Uma hegemonia que já dura três décadas, soma quatro ouros olímpicos e quatro Copas e não parece que irá acabar tão cedo.

+'Essas americanas são diferentes mesmo. Parecem um time masculino jogando'

A trajetória delas até esta final passou longe de ser a mais simples. Se na fase de grupos, a seleção americana teve "tranquilidade" para passar por Tailândia (13 a 0), Chile (3 a 0 com as reservas) e Suécia (2 a 0), dali em diante vieram ameaças constantes: Espanha nas oitavas (2 a 1), França nas quartas (2 a 1) e Inglaterra na semi (2 a 1). Agora, diante das campeãs europeias da Holanda, os Estados Unidos impuseram seu ritmo de jogo e venceram por 2 a 0.

Mas o que explica um time que permanece por tanto tempo ganhando tudo, no topo, praticamente sem sofrer ameaças? Por que as americanas são tão imbatíveis no futebol feminino? A explicação não tem nada a ver com sorte, nem com a fragilidade dos adversários. Explicamos aqui como os Estados Unidos construíram essa hegemonia com muito trabalho entre as mulheres.

Foto: AFP

1- A maior base do mundo

Nos Estados Unidos, futebol é "coisa de menina". Enquanto os meninos vão para o basquete, o futebol americano, o beisebol, o esporte mais popular entre as meninas é justamente o futebol. É mais ou menos a mesma lógica que aplicamos no Brasil com os meninos, que aqui todos eles nascem com a bola no pé – só que lá isso acontece com as meninas.

A brasileira Marcia Tafarel trabalha em um dos clubes de base dos EUA (Foto: Arquivo Pessoal)

Elas podem começar em casa ou na escola, mas desde muito pequenas já têm a oportunidade de jogar em clubes. Existem muitos que oferecem categorias de base para garotas a partir dos 7 anos. Isso faz com que elas se desenvolvam desde muito cedo e que tenham o futebol como uma possibilidade de futuro – lá, o esporte está sempre atrelado à educação e quem joga bola tem grandes chances de conseguir uma bolsa na universidade para seguir essa carreira.

"A beleza do nosso país é que temos muitas, muitas meninas jogando, acho que essa é a nossa grande vantagem. Acho que temos mais mulheres jogando no nosso país comparado com o resto do mundo somado. Mas é um país grande, então é um desafio fazer com que esse desenvolvimento seja igual em todos os lugares, sempre temos esse debate", disse às dibradoras Julie Foudy, ex-capitã dos Estados Unidos, bicampeã mundial (1991 e 1999) e bicampeã olímpica (1996 e 2004).

"Temos leis muito fortes que permitem que as meninas joguem, elas têm a oportunidade também de jogar na faculdade também. A nossa liga profissional não é a mais forte, mas elas têm a chance de jogar. Isso ajuda a conseguir se manter no topo".

Não é mentira quando Foudy diz que os Estados Unidos têm mais mulheres jogando do que a soma do resto do mundo. Um estudo divulgado na última semana pela Fifa mostrou que existem 9,5 milhões de meninas/mulheres jogando futebol (disputando campeonatos, etc) em território americano. Considerando que todos os países somados têm 13,3 milhões de jogadoras, os EUA representam 71% de todas as mulheres que jogam bola no mundo.

Somente entre as atletas menores de 18 anos registradas em clubes, são 1,5 milhão. Um número muito expressivo que garante a formação de atletas de alto nível para abastecer as seleções de base e a principal.

2- Mais investimento

Quando perguntada na coletiva de imprensa antes da final sobre o que seria necessário para manter o futebol feminino no topo após a Copa, a capitã americana Megan Rapinoe não pestanejou: "money, money, money, money".

Foto: Reuters

Sem investimento, você nunca vai conseguir construir um negócio rentável – e também não vai conseguir um time campeão. O investimento da US Soccer, a confederação americana, ao longo das últimas décadas foi o que permitiu aos Estados Unidos se manter no topo por muito tempo. E isso é reconhecido até mesmo pelas atletas, que travam na Justiça uma batalha contra a entidade reivindicando igualdade nos pagamentos e nas condições de trabalho em relação à seleção masculina.

"Nossa Confederação é um exemplo quando se fala em financiamento da equipe. Obviamente eu sou a primeira a questioná-los e cutucá-los sobre isso, mas eles nos apoiaram demais. Comparando com todas as outras confederações do mundo, não acho que exista alguém próximo. Acho que essa é a grande razão pela qual conseguimos ser tão bem-sucedidas e dominantes por todo esse tempo", pontuou Rapinoe.

Foto: Fifa

"Nós não costumamos elogiá-los, mas é definitivamente válido mencionar isso. Eles apoiam a equipe de uma forma muito forte e elevam o nível do jogo, não só em nosso país, mas em todo o mundo. Então eu acho que eles merecem uma quantidade enorme de crédito por isso e vamos continuar a empurrá-los para frente", completou.

3- Renovação

Os Estados Unidos nunca tiveram uma "Marta", no sentido de ter revelado uma jogadora absoluta, que tenha conquistado tantos prêmios individuais e encantado o mundo com sua forma diferente de jogar. Mas eles sempre tiveram grandes destaques. Em todas as gerações das seleções americanas, é possível identificar "algumas craques" que lideraram a equipe para as conquistas.

Campeãs em 1991, na China (Foto: US Soccer)

Na geração de 1991 e 1999, Mia Hamm, Julie Foudy, Brandi Chastain. Na geração de 2004 e 2008, elas já foram passando o bastão para Abby Wambach, Carli Lloyd, Tobin Heath e Hope Solo; em 2012 e 2015, surgiram vieram as líderes que tomariam conta dessa geração, Alex Morgan e Megan Rapinoe; e nessa Copa, já se vê outros nomes despontando, como Rose Lavelle e Lindsay Horan (24 e 25 anos). Ou seja, a renovação é constante. Sempre há novas craques e, principalmente, novas líderes surgindo para não só manter o nível do time dentro de campo, mas também para continuar a luta da equipe fora dele.

(Foto: Getty)

"Acho que isso é definitivamente uma característica do nosso time. Sempre fomos guerreiras em termos de cobrar a confederação para apoiar o futebol feminino. E quando começa assim, nós ensinamos as novas gerações, isso é o que importa. Nós sempre falamos para elas: é por isso que você vai lutar, para fazer o jogo melhorar para as próximas gerações. Nós somos muito conscientes na hora de fazer com que as gerações futuras saibam da importância disso também e que elas se importem com a luta", explicou Julie Foudy.

Esse discurso, inclusive, é muito visível em todas as atletas. É muito comum ouvir Morgan e Rapinoe falando sobre o papel que elas têm para "deixar o jogo melhor para o futuro". Uma consciência coletiva que é difícil de encontrar em outros times do mundo. É que alimenta o surgimento de novas craques dentro de campo, que também são líderes fora dele. As atletas de hoje sempre fazem questão de mencionar as que vieram antes delas – Rapinoe nomeou algumas das campeãs de 1999 na coletiva e também pediu a Carli Lloyd, que está em sua última Copa, para levantar a taça de campeã.

"Nós tentamos honrar a tradição que as gerações de 1991 e 1999 deixaram", disse Alex Morgan.

4- Reivindicações coletivas

Esse talvez seja o maior exemplo das conquistas americanas. Porque se elas conseguiram tantos títulos, isso só foi possível graças ao investimento que tiveram por parte da confederação. E elas não tiveram isso de mão beijada. Na primeira Copa do Mundo, em 1991, elas também viajaram com os uniformes que restavam da seleção masculina e não tinham tanto apoio da US Soccer. Mas para elas essas reivindicações sempre foram cruciais e coletivas, e isso ajudou muito o time a conseguir avançar.

(Foto: AP)

"Em muitos países, questionar, cobrar as confederações significa ser cortada depois. Então é difícil quando você não tem muitas oportunidade para falar. Mas o que nós aprendemos muito cedo é que, quando você faz isso coletivamente, juntas, eles não podem cortar o time todo. Você vai ter que cortar 20 jogadoras, 40, e aí eles estão ferrados, porque não podem fazer isso", explicou Julie Foudy.

Foi essa união que levou as atletas da seleção americana a processar a US Soccer alegando desigualdade de gênero institucionalizada. Todas as 28 atletas entraram na Justiça reivindicando as mesmas condições de trabalho e os mesmos pagamentos que a confederação dá à seleção masculina – tudo isso em março, a três meses do início do Mundial. Nenhuma jogadora foi cortada, porque não seria possível uma punição a todas elas. Hoje, elas ainda precisam fazer seu papel no campo e também fora dele.

"Infelizmente ainda sobra para as jogadoras fazer isso (lutar por igualdade). Esperamos que chegue o dia em que as jogadoras não precisem levantar a voz nessa luta. Mas acho que é importante ter jogadoras que continuam lutando e é isso que temos visto hoje no mundo todo. Espero que chegue um momento em que não precisemos mais lutar."

Sobre as autoras

Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Renata Mendonça é apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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